A armadilha da nota oficial (por Mary Zaidan)

Desde que chegou à Presidência, Jair Bolsonaro faz o Brasil refém do seu humor. Suas agressões, disparates e ameaças movem a política e a economia, incitam e alimentam o ódio e a incivilidade. Da tarde de quinta-feira para cá isso se tornou ainda mais grave. Ele conseguiu parar o país. Não com tanques ou desordem de caminhoneiros sem causa, mas com a desconfiança sobre o que ele fará no dia seguinte.

Depois da nota oficial negando tudo que sempre pregou com vigor e ira, o debate sobre a ruptura anunciada cedeu lugar ao até quando Bolsonaro vai ficar calmo, bonzinho. O resultado é de paralisia: ninguém crê na conversão do presidente, mas também não se pode refutar o diálogo com ele. Assim, nada anda – nem o país nem o impeachment.

Tida como solução harmonizadora entre os poderes, a bizarra nota de contrição sem pedido formal de perdão, redigida pelo ex Michel Temer e assinada por Bolsonaro, gerou incertezas em todas as pontas. Se a Bolsa subiu e o dólar arrefeceu no ato da publicação, no dia seguinte o desânimo voltou a ditar o mercado. Ministros do STF a viram com óbvio ceticismo. Políticos, até da situação, com um misto de surpresa e desalento. A fidelíssima deputada Carla Zambelli (PSL-SP) chegou a duvidar do teor.

Entre os apoiadores mais aguerridos a decepção foi aguda. Nas redes, bolsonaristas de carteirinha como Rodrigo Constantino e Allan dos Santos chegaram a defender que o presidente abandonasse a disputa em 2022 em prol da candidatura do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. O pastor Jackson Vilar, um dos organizadores da motociata paulista Acelera para Cristo, soltou os cachorros: – “Você não merece respeito, Bolsonaro. Você traiu os motociclistas, os caminhoneiros, seu povo. Porque você é um frouxo, covarde. É isso que você é”.

À noite, Bolsonaro disse durante a live semanal que entendia a decepção de apoiadores, mas que os recuperaria em “dois dias”. E partiu para cima do ministro Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, que no mesmo dia fizera um dos mais duros e precisos discursos contra a sanha autoritária do chefe do Executivo.

Em tom jocoso, Bolsonaro vomitou baixarias de cunho sexual ao novamente contestar a lisura das urnas eletrônicas. “Se o Barroso anuncia que tem novas medidas protetivas por ocasião das urnas, é porque elas têm brecha. É porque elas são penetráveis. Entendeu, Barroso? Penetráveis. Ministro Barroso, entendeu? As urnas são penetráveis, o pessoal pode penetrar nelas.”

No cercadinho do Alvorada, na manhã do dia seguinte, voltou ao morde e assopra que tanto gosta utilizando a metáfora de que não se pode namorar e casar em uma semana. Entortou-se todo para passar a ideia de recuo tático, com margem para voltar à carga na hora certa, pensamento-motriz que passou a dominar a rede bolsonarista na sexta-feira à tarde.

Por seu turno, Temer adorou o papel de domador da fera. Deu entrevistas, contou detalhes, voltou à ribalta. E também contribuiu com a dúvida paralisante ao afirmar que não poderia colocar a mão no fogo pelo dia seguinte. Para defender sua frágil crença de que o presidente não voltaria atrás, usou o fato de que Bolsonaro tinha assumido um compromisso “por escrito” e não verbal, corroborando com o que todo mundo está cansado de saber: a palavra de Bolsonaro nada vale. Certamente, nem a sua assinatura.

Na seara econômica, a confissão do ministro Paulo Guedes de que o presidente atrapalha – com a ressalva de que seu chefe excede nas palavras, mas não nas ações – foi insuficiente para animar. O ambiente continua tenso, dominado pela insegurança e dependente do que Bolsonaro fará daqui a pouco. Portanto, à espera, estagnado, paralisado.

Mesmo desacreditada, a nota de recuo mexeu ainda com a disposição quanto ao impeachment, que tinha se encorpado a partir do dia 7. Ainda não dá para saber qual o efeito dela nas ruas, teste que, para o bem ou para o mal, se verá neste domingo.

As manifestações de hoje, por mais que tenham sido conclamadas para unir todos contra um, não contam com o apoio de parte da esquerda – PT, PSOL e CUT. Provavelmente devem ser menores do que as do dia 7. Mas não serão fake como os atos orquestrados pelo presidente, cujas bandeiras foram negadas por ele 48 horas depois. As ruas de agora têm uma só mira: o impeachment do pior presidente do Brasil. E não podem cair na armadilha da nota oficial.

Mary Zaidan é jornalista

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