Adolescente transforma dor em arte e escreve livro de fantasia sobre ansiedade e prevenção ao suicídio


Marcos Martinz foi diagnosticado com depressão aos 16 anos e decidiu escrever sobre seus sentimentos, somando a angústia a um enredo lúdico, na obra ‘Até que a morte nos ampare’. ‘Até que a morte nos ampare’ aborda temas como ansiedade e depressão por meio de uma história lúdica
Arquivo Pessoal/Marcos Martinz
Diagnosticado com depressão aos 16 anos, um jovem de Mongaguá, no litoral paulista, superou a doença relatando suas dores em um livro de fantasia. Marcos Martinz, que atualmente tem 20 anos, agora ajuda outras pessoas a superarem a depressão por meio de palestras em escolas, de forma online e pelas redes sociais.
Segundo Martinz, ele começou a sentir os sintomas da depressão em 2017, quando percebeu que não tinha vontade de acordar para ir à escola, não sentia o gosto da comida e nem prazer nas atividades do dia a dia, além de sentir muito sono.
Ele relata que, no Ensino Médio, começou a sofrer bullying, e com todas as outras dificuldades da adolescência, além do processo de separação dos pais, acabou se fechando. Com uma tristeza que permanecia por muito tempo, e preocupado com sua situação, decidiu procurar ajuda médica e iniciou um acompanhamento com uma psicóloga, após tentar tirar a própria vida.
Em meio às sessões de terapia, a profissional orientou o adolescente a escrever sobre o que sentia, externando suas dores. Após começar a relatar seus sentimentos no papel, ele decidiu dar vida aos textos e escrever um livro.
“Eu sempre fui muito apaixonado por fantasia e pelo universo lúdico, e quando fiz terapia, a psicóloga me orientou a escrever sobre o que eu sentia. Eu comecei, na verdade, escrevendo uma peça, porque queria ser ator, mas fui sentindo que a narrativa estava extensa e muito literária, e deixei rolar. Peguei tudo o que estava sentindo e coloquei no papel, mas vi que estava muito voltado à angústia, o que poderia despertar gatilhos. Foi aí que peguei a obra e decidi ir para o lado da fantasia sobrenatural, para que ficasse mais leve”, relata.
Livro escrito por Marcos Martinz foi discutido pelo autor em escolas municipais antes da pandemia
Arquivo Pessoal/Marcos Martinz
Na obra, Martinz utiliza uma trama lúdica para abordar temas como depressão, ansiedade e outras questões que podem afligir os adolescentes. Em entrevista ao G1, ele esclareceu que a criação já foi lida em mais de 15 escolas, em Mongaguá e Praia Grande, onde, após o fim da leitura, ele compareceu para palestrar aos alunos.
Nos encontros, além da depressão, ele aborda a importância da prevenção ao suicídio na adolescência. O autor acredita que os livros têm a capacidade de ressuscitar sonhos, nomear as dores e transformar a visão que se tem da vida.
Após o tratamento, entre os 16 e os 19 anos, com o apoio da família, o escritor encontrou nas palavras uma forma de superar suas dores, e decidiu ajudar outras pessoas, também. Por isso, criou uma página no Instagram (@eumarcosmartinz), onde divulga detalhes sobre sua obra e relata a importância de conversar com um profissional ao perceber sintomas de depressão.
Após chegada da pandemia, palestras do autor passaram a ser realizadas de maneira virtual
Arquivo Pessoal/Marcos Martinz
“Hoje em dia, o medo me impulsiona a tomar atitudes. A gente tem que fazer amizade com nossos fantasmas. Falar sobre os nossos espinhos é necessário, é o único caminho para a cura, principalmente falar com as pessoas certas e pedir ajuda. Procurar ajuda psicológica é essencial, mas eu não sou psicólogo, por isso, acredito que os livros inspiram as pessoas a buscarem essa ajuda”, explica.
O jovem ainda relata que lida bem com as críticas, não se importa com os ataques, e que fica muito feliz ao receber um retorno dos leitores. “Ver a superação do outro por meio de algo que seria uma angústia para mim foi uma sensação de dever cumprido, me senti muito abraçado”, diz.
Agora, ele segue se aperfeiçoando, já com outras obras em produção, tornando a escrita muito além de um hobby, mas uma forma de lutar pela vida. “Toda vez que olho para o meu livro, eu penso: ‘sobrevivi’. Peguei uma dor, transformei em flor, e decidimos montar um jardim com tudo isso”, conclui.
Até que a morte nos ampare
Personagem protagonista Rosa fez sucesso entre adolescentes, que começaram a fazer ‘cosplays’
Arquivo Pessoal/Marcos Martinz
No livro ‘Até que a morte nos ampare’, o espírito do personagem Marcos é levado a um passeio ao mundo dos mortos pela personagem Dona Morte, para que ele conheça a história de algumas pessoas que estão estagnadas em uma espécie de ‘purgatório’ do outro lado da vida, buscando redenção. É onde ele conhece Rosa, protagonista da história.
A obra, que envolve suspense, drama, humor e momentos reflexivos, trata de assuntos sérios, como depressão, ansiedade, valorização da vida e prevenção ao suicídio na adolescência, mas de forma leve, por meio das particularidades de cada personagem.
Segundo Martinz, após uma reunião com a Secretaria de Educação de Mongaguá, o livro foi implantado em escolas municipais. Antes da chegada da pandemia do novo coronavírus, ele comparecia às unidades para conversar com os alunos.
Em fevereiro deste ano, ele lançou uma segunda versão do livro, aprimorando a história e desenvolvendo uma nova capa, em parceria com uma nova editora, que atua junto às prefeituras para implantar livros nas escolas municipais. A divulgação da nova versão se estenderá por mais alguns meses de 2021 e, em seguida, ele dará prosseguimento a novos trabalhos.
VÍDEOS: G1 em 1 Minuto Santos
Adicionar aos favoritos o Link permanente.

Os comentários estão desativados.