Apelo pela Chapada (4): ecoturismo, um potencial mal aproveitado

O agronegócio não é a melhor vocação para uma região como o Norte-Nordeste goiano. – há muita mais riqueza a ser gerada com o potencial turístico

Como poderia ser a região da Chapada se houvesse uma priorização total do potencial do ecoturismo? Esse é o ensaio que fazemos, no encerramento da série de matérias sobre o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV).

Uma das maiores unidades proteção integral ao Cerrado, o parque é novamente alvo de atenções especiais dos ambientalistas por causa do projeto de decreto legislativo (PDL) 338/2021, de autoria do deputado federal Delegado Waldir (PSL-GO). A proposta quer sustar o Decreto Legislativo de 5 de junho de 2017, assinado pelo presidente Michel Temer (MDB), que  aumentou a área do parque de 65 mil para mais de 240 mil metros quadrados.

Uma superfície extensa e contínua é item vital para que um parque que visa proteção integral faça sentido em seu propósito. Por outro lado, uma justificativa de Waldir para seu PDL se sustenta em um ponto sensível: as famílias ocupantes das terras desapropriadas estão à espera da indenização, muitas delas em situação de grave insegurança. O problema é admitido até mesmo pelas autoridades constituídas.

Em um debate promovido pela TV Brasil Central, na qual defendeu sua proposta de redução do PNCV, Delegado Waldir teve até mesmo o apoio de seu opositor na mesa, o advogado da Victor de Alencar Mendonça, presidente da Comissão de Direito Ambiental da seção goiana da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-GO).

Segundo o deputado, são 540 famílias sem indenização por conta do decreto de Temer. Mais do que isso: desde a criação do parque, em 1961 – ou seja, há 60 anos, não houve nenhum pagamento de indenização. Mendonça concordou que “o poder público não pode implementar uma política pública falha”. “O vício não está no ato de criação da unidade de conservação, mas no fato de o Estado deixar de executar o que lhe é obrigado, no caso, dar andamento aos processos de indenização por desapropriação dessas áreas”, disse o representante da OAB-GO.

De fato, falta nesse caso – como, de resto, em muitos planejamentos pela metade que ocorrem nas políticas públicas nacionais – o outro lado da sustentabilidade: além da questão ambiental, também o aspecto social.

E uma forma de fazer andar tanto a política ambiental como a social, em uma região dotada de tantos atributos naturais, com paisagens únicas, seria incentivar o ecoturismo como principal atividade econômica.

Já faz mais de 15 anos que o professor Ivanilton José de Oliveira do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da Universidade Federal de Goiás, defendeu sua tese de doutorado, que tinha como mote o aprimoramento da experiência turística pelo uso de mapas. Intitulada Cartografia turística para a fruição do patrimônio natural da Chapada dos Veadeiros (GO), a tese foi defendida na Universidade de São Paulo (USP) e se baseava em uma cartografia turística, de modo que os mapas disponibilizados pudessem dar uma “contribuição significativa para o desenvolvimento de um tipo diferenciado de turismo”, cuja concepção não se restringisse “ao consumo irrefletido” dos lugares visitados.

Em outras palavras, que o turista, mais do que apenas se divertir, também tivesse a oportunidade de ganhar conhecimentos sobre aquele espaço para o qual viajava. E “conhecimento” é uma palavra-chave para entender a região da Chapada, que tem, além da vegetação única, também relevos, animais e um modo de desenvolver atividades humanas bem particulares.

Entrevista / Ivanilton José de Oliveira

Em entrevista ao Jornal Opção, o professor Ivanilton falou mais sobre seu trabalho e o que pensa sobre a realidade do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e da região como um todo:

Estrategicamente para a questão ambiental, qual é a importância do aumento de quase quatro vezes, ocorrido em  2016, da área do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros?

A área do parque em si era diminuta, mesmo sendo considerada uma das grandes áreas contínuas preservadas do Cerrado. Ainda assim, se comparada a outros parques, era muito pequena. O entorno do parque já vinha sendo configurado na forma de outras de conservação, principalmente com unidades de conservação (UCs) de uso sustentável, mas isso apenas não garante a conservação nos moldes de um parque.

Uma APA [área de proteção ambiental] não garante a biodiversidade, em especial em uma área rica como é a do PNCV e a da Chapada, como um todo. Lá existe um tipo de vegetação, o cerrado de altitude, que ocorre em pouquíssimas áreas do País.

Com exceção de algumas propriedades particulares e que garantem essa conservação associando isso a um uso turístico, poucas obtêm sucesso. As APAs não conseguem. Se nem mesmo os parques têm um plano de manejo adequado, o que se dirá das APAs?

Uma das alegações do Delegado Waldir, autor do projeto que quer reduzir a área, é a de que o aumento da área prejudicou principalmente pequenos produtores da região, que viviam da terra. Até que ponto esse prejuízo realmente aconteceu?

Na Chapada, os solos têm restrições mecânicas, o relevo não ajuda. Obviamente, por haver produtores com pecuária extensiva, a ampliação vai afetar as propriedades rurais. De qualquer forma, o ganho ambiental compensa o prejuízo financeiro. No Norte-Nordeste goiano, a gente já tem uma das poucas áreas conservadas no País.

Em sua tese de doutorado, o sr. propôs um modelo de cartografia turística para a região da Chapada dos Veadeiros. Como você observa a região hoje, mais de dez anos depois de concluído seu trabalho? O ecoturismo se confirma como uma vocação aquém ou além das suas expectativas?

Quando eu fiz minha pesquisa de doutorado, com cartografia turística, o ecoturismo já era muito significativo na Chapada. A Embratur sempre divulgou a área como um dos grandes roteiros turísticos até para o exterior. É uma área referência para o ecoturismo no Brasil. Agora, em função da pandemia, houve um prejuízo da visitação, mas uma das carências sempre foi em estatísticas. Tenho vontade de retomar os mapas turísticos para ver o que mudou desde então.

O potencial ecoturístico da região ainda tem muito a caminhar?
O ecoturismo está disposto a um nível de aprendizado do local por parte de quem visita. Esse alguém não é um mero consumidor do espaço, não pode ser visto assim. Ele geralmente está disposto a aprender sobre a vegetação do Cerrado, seu relevo, os aspectos geológicos etc. Há muito que ser ampliado nesse sentido. No caso do PNCV, há muitos anos o parque já tinha materiais preparados para isso e os guias servem para ampliar, nos visitantes, principalmente seus conhecimentos sobre a vegetação do Cerrado. Quando a obrigatoriedade de guias deixou de existir, isso foi uma perda. As áreas particulares no entorno, algumas têm trilhas guiadas, mas está muito aquém do que poderíamos esperar de ecoturismo

Em sua visão, o aumento da extensão do parque contribui com a economia dos municípios?
A ampliação do parque pode contribuir para a economia, mas no Brasil há muita dificuldade ainda em mensurar o peso do turismo nos recursos do município, porque nem sempre as atividades são registradas como diretamente ao turismo. Exemplo: muitos dos empregos gerados pela atividade turística são registrados como setor de serviços ou no setor de comércio em geral. Mas sabemos que quem está em Cavalcante ou Alto Paraíso sabe muito bem da importância que o turismo tem, apesar de a agropecuária ser a principal.

Qual é a importância do Parque Nacional para a economia da região? Em “termos financeiros absolutos”, ela não ganharia mais com o agronegócio?
A grande prova de que isso é uma falácia a gente pode observar quando vemos o PIB [produto interno bruto] de cada município. Grande parte dos municípios que têm os menores PIBs são justamente os que têm a pecuária extensiva como principal atividade econômica registrada. É preciso trabalhar nessa balança com elementos mais plurais do que simplesmente comparar o avanço do agro em uma área como a da Chapada ao que há em outras que são completamente diferentes e mais apropriadas ao cultivo, como ocorre, por exemplo, no Sudoeste goianos.

 

 

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