Biblioteca criada em homenagem a uma vítima do terrorismo é saqueada no Afeganistão

Os talibãs saquearam no Afeganistão a biblioteca Najiba Bahar, que leva o nome de uma jovem morta há quatro anos em um ataque suicida do movimento fundamentalista islâmico.

Refugiado em Roma, Ghulam Hussain Rezai, que era seu noivo, diz estar “arrasado” ao mostrar imagens de livros e prateleiras no chão, portas quebradas e fotos rasgadas.

Rezai foi retirado do país por militares italianos após a entrada do Talibã em Cabul.

Depois da morte da noiva em 2017, ele, seus amigos e familiares criaram a Fundação Najiba na cidade de Nili, com uma biblioteca e laboratório de informática para fornecer educação para meninos e meninas na remota província afegã de Daikondi.

Mas o prédio da fundação, na cidade de Nili, capital de Daikondi, foi saqueado quando o Talibã chegou em agosto.

“A biblioteca e o laboratório de informática foram parcialmente destruídos”, conta Rezai.

“Minha família, meus amigos e a equipe da Fundação Najiba estão em pânico”, diz o homem, que conseguiu fugir de Daikondi para Cabul com alguns de seus colaboradores.

“Estão escondidos, temo por sua segurança”, insiste Rezai.

Najiba e Rezai planejavam se casar quando um carro-bomba destruiu o ônibus em que viajava em Cabul em 24 de julho de 2017.

Najiba, então com 27 anos, morreu junto com outras 25 pessoas, e seu corpo estava tão desfigurado que só puderam identificá-la pelo anel de noivado.

– Vidas perdidas –

Najiba cresceu em um vilarejo de Daikondi e obteve bolsas de estudo para estudar ciência da computação na Índia e no Japão, onde obteve seu título de mestrado.

Seus amigos e familiares ficaram chocados com sua morte, mas a criação da fundação os ajudou a seguir em frente.

“Isso me ajudou com o trauma, senti que tinha feito algo por Najiba”, diz Rezai.

Começaram com a ideia de uma biblioteca e coletaram cerca de 12.000 livros, mas também de um laboratório de informática para refletir a paixão de Najiba e ajudar os jovens da região com acesso à internet.

Rezai acredita que o local foi visado pelo Talibã, porque o grupo islâmico é “contra a educação de meninas, e este era um centro para meninas e meninos”.

A fundação busca combater o extremismo por meio da educação, mente aberta e tolerância e lembrar de todas as vítimas, não apenas de Najiba.

“Nós nos opomos ao esquecimento”, afirma Rezai, que insiste na importância de lembrar “quantas vidas lindas perdemos”.

“Todo mundo no Afeganistão perdeu alguém. A tragédia se tornou normal. Com a fundação, queria mostrar que isso não é normal”.

Rezai quer que a fundação continue, contanto que “não represente um risco para a equipe”.

Mas por enquanto enfrenta um futuro incerto, à espera de saber para onde o governo italiano o enviará assim que sua quarentena para o coronavírus terminar.

A Itália foi um ator-chave na operação militar no Afeganistão, evacuando quase 5.000 afegãos nas semanas caóticas que se seguiram à tomada do Talibã.

Rezai deixou o país com sua irmã de 21 anos, mas abandonou tudo e todos, inclusive sua mãe e dois sobrinhos, de 16 e 21 anos, que estavam sob seus cuidados.

Seus sobrinhos deveriam viajar com ele, mas foram separados em meio a uma grande multidão no aeroporto de Cabul.

Ele passou várias horas com a angústia de não saber se haviam sobrevivido ao ataque de 26 de agosto, perpetrado pelo braço local do grupo do Estado Islâmico no aeroporto.

Finalmente, conseguiu se comunicar com sua mãe, que o informou sobre eles. “É claro que eles foram afetados emocionalmente, mas graças a Deus estão seguros”.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.

Os comentários estão desativados.