Bolsonaro aluga trégua para enterrar impeachment, mas mercado não deve comprar pacificação

SÃO PAULO – O recuo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que possibilitou um armistício com o Supremo Tribunal Federal (STF) – movimento costurado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) – pode até dar um alívio para a discussão de pautas relevantes pendentes de solução no mundo político, mas tende a durar pouco. É o que avaliam analistas ouvidos pelo InfoMoney.

Na avaliação de João Villaverde, consultor da Medley Global Advisors, a dúvida é apenas quando ocorrerá o evento que provocará a nova crise institucional. Ele acredita que o movimento de Bolsonaro tem um componente estratégico, em um contexto em que o risco de um processo de impeachment voltava a crescer com a articulação de partidos de “centro” no Congresso Nacional.

“Armistício com Bolsonaro, a gente conta em minutos. Não dá para ninguém, em setembro de 2021, ter a ilusão que isso vai durar muito tempo, que isso é favorável ao ambiente de reformas. Essa ilusão fazia sentido em 2019, ano de lua de mel. Não faz o menor sentido hoje”, afirmou em live. Assista a íntegra pelo vídeo acima.

Além do alívio temporário provocado pelo gesto, o analista acredita que o presidente busca ganhar tempo – já que os incentivos para os atores políticos organizarem um processo de impeachment diminuem na medida em que o calendário eleitoral se aproxima.

“Ainda é possível acontecer o impeachment de Bolsonaro. Não acho que isso acontecerá e acho que ninguém espera, mas ainda dá para acontecer. Nesse sentido, para acontecer, ele tem que começar em, no máximo, um mês ou 40 dias”, disse.

Por essa tese, Bolsonaro ainda precisaria atravessar os meses de setembro e outubro para praticamente enterrar em definitivo o risco de ser cassado pelo parlamento. Depois disso, as atenções dos congressistas se voltam à aprovação do Orçamento de 2022 e às costuras para as eleições – com os 513 assentos na Câmara dos Deputados e 27 dos 81 no Senado Federal em disputa, além dos 27 governos locais e respectivas assembleias legislativas e a presidência da República.

Já a equipe de análise da XP Investimentos chama atenção para os impactos da crise política sobre a discussão dos precatórios – dívidas do poder pública por decisões judiciais definitivas, que devem crescer de forma expressiva em 2022 e tornar mais complexa a execução orçamentária no período.

“A nota do presidente Jair Bolsonaro compra um pouco de tempo, diante da escalada da crise, e tenta baixar a temperatura para que não chegasse o momento em que ele precisasse decidir se cumpriria ou não a promessa de não respeitar decisão do ministro Alexandre de Moraes. Mais uma vez, vemos o presidente repetir a trajetória pendular que joga para extremos artificialmente a temperatura política”, observam.

Para eles, o texto também pode ter um componente tático, uma vez que tem o potencial de colocar em qualquer ação do ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito das Fake News no STF, a pecha de provocação a Bolsonaro. Caso se confirme, isso poderia comprar tempo para o mandatário também no Poder Judiciário, em meio às preocupações que já demonstrou com o avanço de investigações em curso.

“A nota também busca oferecer ao Supremo espaço para uma nova leitura do momento, que permita eventualmente reconsiderar a ‘saída CNJ’ para a questão dos precatórios. Após o recuo, qualquer passo de Moraes em direção a apoiadores do presidente poderá ser entendido como uma provocação do STF, o que coloca Bolsonaro em uma posição menos desconfortável”, complementam.

“A dúvida que permanece, no entanto, é quanto tempo deve durar a trégua de Bolsonaro. Não seria a primeira vez que, a um passo de distensionamento, seguem-se outros em direção contrária. O tom de diálogo com o STF foi retomado, mas depende mais do que nunca de uma regularidade no comportamento que Bolsonaro tem dificuldade de manter”, concluem.

O comportamento de apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais mostra que o presidente terá dificuldades em sustentar uma mudança de postura por muito tempo. Nas horas que sucederam a divulgação da carta, relatórios de monitoramento mostravam integrantes da base bolsonarista explorando termos como “medo”. O recuo foi interpretado como gesto de fraqueza e até de traição pela base.

Apesar dos custos relacionados, o movimento por ora não altera perspectivas para a agenda de reformas. A declaração à nação assinada por Bolsonaro provocou alívio nos mercados e fez com que o Ibovespa saísse de uma queda de 0,6% para uma alta de 2,6%, para fechar com ganhos de 1,72%, a 116.353 pontos.

Mas Sylvio Castro, fundador e CIO da Grimper Capital, alerta que isso não significa que os agentes econômicos compraram uma mudança estrutural nas perspectivas do país. “O mercado tirou do preço um pouco dessa incerteza com relação à completa incapacidade de os Poderes se articularem para, pelo menos, manter um nível de equilíbrio para o país até o término do governo Bolsonaro”, disse.

“Não acho que o mercado hoje está celebrando que nosso PIB potencial muda de patamar ou que o custo de capital vai ser muito mais baixo. Mas acho que o mercado está, sim, celebrando que diminuímos essa escalada que torna inviável a discussão de como vamos resolver o pagamento dos precatórios, como vamos aprovar o Orçamento do ano que vem. O mercado pelo menos respira um pouco mais aliviado”, complementou.

“Aqueles problemas que são um pouco mais estruturais esse armistício, ainda que permanente, não resolve totalmente. Continuamos sem saber exatamente quanto vai custar a energia no ano que vem. Continuamos sem saber quais impostos e como vamos pagá-los. E continuamos com dificuldade de saber como um programa de assistência um pouco maior/precatórios/emendas vai caber no Orçamento que não é tão grande assim”, explicou.

Analistas do mercado também acreditam que a volatilidade deve continuar a dar o tom dos pregões, sobretudo diante das persistentes dúvidas sobre o andamento da pauta econômica, a crise hídrica, a inflação elevada e a própria movimentação de caminhoneiros.

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