Brasileiro sobrevivente do 11 de Setembro relembra atentado 20 anos depois: ‘Terrível’


Natural de Porto Alegre, economista Larry Pinto de Faria Jr. trabalhava na torre norte do World Trade Center, a primeira atingida por um avião naquela manhã. Ataques da Al-Qaeda vitimaram quase 3 mil pessoas em Nova Iorque, Washington e na Pensilvânia. Sobrevivente do 11 de Setembro relembra atentados nos EUA
A manhã de 11 de setembro de 2001 começou como qualquer outra para o economista Larry Pinto de Faria Jr., na época com 43 anos. O porto-alegrense atendia um cliente por telefone quando, às 8h46, ouviu um estrondo, sentiu sua mesa tremer e viu, pela janela ao lado, destroços caindo do céu.
Ele estava na torre norte do World Trade Center, em Nova Iorque (EUA), a primeira atingida por um avião nos ataques que vitimaram 2.996 pessoas, incluindo 19 terroristas.
Aos 63 anos e morando em São Paulo, Larry contou ao G1 suas memórias daquele dia, há exatos 20 anos. Veja vídeo acima
“Faz 20 anos. Eu vejo isso na minha cabeça como se fosse ontem. Eu já falei bastante sobre isso, eu já comentei bastante sobre isso, mas foi uma situação, assim, terrível”, lembra.
Ao menos três brasileiros mortos constam na lista de vítimas do Memorial & Museu Nacional do 11 de Setembro: Ivan Kyrillos Fairbanks-Barbosa, Anne Marie Sallerin Ferreira e Sandra Fajardo-Smith.
Larry Pinto de Faria Jr. em entrevista ao Globo Repórter de 14 de setembro de 2001
Reprodução/Memória Globo
História de Larry
Filho do já falecido jogador de futebol Larry, ídolo do Internacional e campeão Pan-Americano de futebol com a seleção brasileira em 1956, o economista se mudou para Nova Iorque em fevereiro de 1999. Um ano depois, o brasileiro começou a trabalhar no World Trade Center.
Responsável por operações financeiras no horário brasileiro, Larry já estava há pouco mais de uma hora na torre norte quando ela foi atingida por um jato comercial entre os andares 93 e 99. Ele trabalhava no 25º dos 110 andares da torre norte, de 417 metros.
“Eu estava no telefone com o cliente quando deu aquele baque. Foi um barulho ensurdecedor e uma pancada muito grande no edifício. Quando deu a pancada, o prédio fez um pêndulo até se ajeitar. Eu olhei para o colega que estava do lado e falei: ‘vamos embora, que isto aqui vai cair’”, recorda.
Colegas americanos que já trabalhavam no local há mais tempo achavam que o impacto tinha sido motivado por uma bomba. Isso porque, em 1993, o World Trade Center foi alvo de um atentado. Um caminhão carregado de explosivos foi detonado no subsolo do complexo, deixando seis mortos e mil feridos.
O economista conta que, imediatamente, se dirigiu às escadas de emergência para deixar o prédio. Segundo Larry, a saída dos trabalhadores foi tranquila, com o espaço à esquerda liberado para a subida dos bombeiros.
Enquanto descia, o brasileiro chegou a falar com o mesmo cliente por telefone, que o contou sobre o que estava acontecendo. Contudo, ainda não se sabia quais eram as dimensões do avião que havia se chocado contra o edifício.
“Ele disse: ‘olha, Larry, foi um avião que bateu no prédio de vocês, acho que não é terrorismo’. Foi exatamente isso que ele me disse”, menciona.
Sem saber ao certo do que se tratava, Larry seguiu os lances de escada. Ao chegar no térreo, ele se deparou com água tomando conta do piso e com o forro já caído. Os elevadores estavam parcialmente destruídos. Um dos equipamentos havia sido lançado para a rua.
“Antes de sair do prédio, a polícia estava nos orientando a proteger a cabeça porque estava caindo muita coisa do prédio, inclusive pessoas”, diz Larry.
Enquanto Larry deixava a torre norte, um segundo avião atingiu a torre sul às 9h03 no horário da costa leste americana. Ele conta que só ficou sabendo do ocorrido quando já estava na rua.
Brasileiro nas Torres Gêmeas: ‘Estava caindo muita coisa do prédio, inclusive pessoas’
‘Foi um pavor’
A salvo, Larry Pinto de Faria Jr. lembra que tentou voltar para casa, em Nova Jersey, na margem oposta do Rio Hudson. O trajeto poderia ser feito de barco ou de trem, mas nenhuma das opções de transporte estava operando no momento.
Enquanto pensava o que iria fazer, estando preso na ilha de Manhattan, o economista viu a torre sul desabar. Larry diz que correu, para tentar escapar dos destroços e da fuligem.
“Eu olhei para o meu lado esquerdo e só vi a antena que tinha na ponta do World Trade Center vindo abaixo. Meu Deus, aquela hora foi um pavor. Foi o único momento, pelo menos, que eu mais tive medo, porque o prédio desabou”, detalha.
Economista relata momento em que torre desabou no 11 de Setembro
Nesse momento, ele consegue entrar em contato com uma amiga, que o avisa que os Estados Unidos estão sob ataque terrorista. Além das Torres Gêmeas, a Al-Qaeda sequestrou aviões que caíram sobre o Pentágono, nos arredores de Washington, e na Pensilvânia.
Cerca de 1h30 depois, Larry diz que conseguiu chegar até a casa do ex-chefe, onde finalmente conseguiu telefonar para a mãe, que estava no Brasil.
“Falei com a minha mãe, depois falei com a minha mulher. Tranquilizei, porque eles estavam completamente sem notícias minhas. Foi um momento de tensão, eles não sabiam onde eu estava, o que tinha acontecido comigo. Foi um pavor”, diz.
Larry conhecia e convivia com algumas das vítimas dos ataques. Um colega de empresa, por exemplo, tomava café no restaurante Windows on the World, localizado nos andares 106 e 107 da torre norte, ou seja, acima do ponto atingido pelo avião. Além disso, morreram de 86 funcionários da empresa na qual o brasileiro havia trabalhado anteriormente.
Ataque contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro
Getty Images via BBC
Repercussão
Ainda no dia 11, no final da tarde, Larry lembra que tinha 180 mensagens em sua secretária eletrônica. Segundo o economista, a maioria era de repórteres brasileiros que buscavam contato com ele.
“Foi um horror a pressão. Eu tirei o telefone do fio e fiquei em casa, tranquilo. Falei com os meus filhos, que eu não tinha conseguido falar com eles ainda, e parei”, relata.
Naquela semana, Larry foi entrevistado pelo repórter Jorge Pontual em reportagem exibida pelo Globo Repórter na sexta-feira, 14 de setembro de 2001.
“Quando eu voltei para o Brasil, eu voltei sobrevivente. Parece que saiu um pouquinho daquela coisa ruim, que eu olhava todo dia pela janela e, até eu sair, no sábado, saía fumaça do World Trade Center. Em termos de memória, era uma coisa horrível”, pontua.
Larry em casa, nos Estados Unidos, falando ao telefone em reportagem do Globo Repórter
Reprodução/Memória Globo
Poucos dias após os atentados, Larry voltou para o Brasil, onde parte da empresa se instalou. Meses depois, no entanto, retornou para Nova Iorque. Anos depois, partiu para Miami, na Flórida, onde viveu até o fim de 2020.
“Eu achei, naquele momento, que tinha acabado tudo. A empresa tinha desaparecido. O negócio, não tinha absoluta ideia do que iria acontecer. Mas acabou tudo voltando ao normal depois de um tempo”, comenta.
O economista é casado com Valeria e pai de dois filhos, já adultos, e tem um enteado.
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