Centrão sobre rodas (por João Bosco Rabello)

Em maio de 2018, o então presidenciável Jair Bolsonaro, apelou aos caminhoneiros para cessar a greve que encurralava o governo Temer. “Até aqui estou com eles, não interessa a mim, e ao Brasil, o caos”, disse então. E acrescentou: “Se faltasse um ano e meio, dois, para o fim do governo, tudo bem, mas são meses, pô”!

A cena se repete com Bolsonaro presidente, um ano antes das eleições presidenciais, renovando o apelo pelo fim da paralisação em curso. Em comum, nos dois momentos, está a liderança que exerce sobre a categoria que nas duas campanhas – a de 2018 e a que antecipou agora – permanece militante e agressiva.

A diferença este ano é a pauta que substituiu as reivindicações próprias da atividade, o que denuncia um comando externo aos sindicatos. A categoria funciona como um coro de ventríloquos a pedir o fechamento do Supremo Tribunal Federal, liberdade de expressão e demais bandeiras separatistas de Bolsonaro, estranhas ao universo das estradas.

Não se trata mais de bloquear rodovias para conseguir melhores preços e condições de trabalho, pela via do desabastecimento, o que já é ilegal, mas de exigir a implantação de um regime sem a separação dos poderes, um governo incontestável e a subjetividade de um espírito patriótico, com barreiras físicas ao direito constitucional de ir e vir.

Como aspirante ao Palácio do Planalto, o deputado Bolsonaro admitia o que agora pede para ser evitado: à época o candidato apoiaria a continuidade da greve se faltasse pouco mais que um ano para o fim do mandato de seu antecessor – mesmo prazo que lhe resta agora. Mas, faltando poucos meses a Temer, os efeitos seriam piores para o sucessor, que viria a ser ele.

Por isso, o êxito do apelo pela liberação das estradas identifica o presidente Bolsonaro como líder dos caminhoneiros que permanecem ainda sob a palavra de ordem do candidato.

Mas é uma caixa de pandora com seus múltiplos efeitos e surpresas, como a desobediente permanência de parte da militância de 7 de setembro na Esplanada, bloqueada aos cidadãos e servidores públicos por quatro dias após as manifestações.

Da caixa, que aberta libera todos os males do mundo, escapou a participação de setores do agronegócio com outra motivação – a de pressionar o STF pela rejeição do marco temporal, cuja aprovação representará perda de território para os indígenas. Os efeitos se fizeram sentir em toda a cadeia do comércio e na Bolsa de Valores. O governo enxergou o risco da perda do controle.

Bolsonaro chegou a preparar um pacote de medidas em favor da categoria, no primeiro ano de governo, para cumprir promessa de campanha, mas ele jamais saiu do papel. Demitiu um presidente da Petrobrás por não “administrar” o preço da gasolina, ato estritamente político para manter os caminhoneiros ao seu alcance.

Os preços, porém, continuam subindo, não há general na Petrobrás que consiga evitar. Os caminhoneiros operam com a chantagem política, são uma espécie de “centrão sobre rodas” e, mais hora, menos hora, ouvem as vozes de sempre, como a de líderes do agronegócio medieval associados a sindicalistas que fazem jus à alcunha, como o foragido “Zé do Trovão”.

Em 2018, como agora, Bolsonaro percebeu que precisa conter sua infantaria das estradas sob pena de ver atropelada a estratégia de controlar a marcha para o caos. Greve de caminhoneiros, nesse momento, equivaleria a uma overdose, mais ou menos como a que ele aplica ao centrão, sua base parlamentar que viaja de avião.

Tendo no governo o céu, a turma de Arthur Lira tem mais resiliência. Já “Zé do Trovão” precisa de gasolina barata, atenção e o conforto que somente sucessivos casamentos com governos distintos podem assegurar, ainda que como ilusão passageira, sempre à sombra do divórcio. A de Bolsonaro é a maior de todas, pois oferece o paraíso do combustível subsidiado, jamais entregue.

Para Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa no governo Temer, o apelo de Bolsonaro aos caminhoneiros se deve exclusivamente à conveniência de proteger-se num momento de erosão da economia, que já registra inflação alta, crise energética, desemprego brutal, dólar em alta e dramas fiscais de alto risco.

No que resta de mandato, além da instabilidade pessoal, política, econômica, judicial, sanitária e social, o presidente tem o desafio de conter a voracidade de dois consortes:  o centrão de gravata e o que produz trovoadas em plena escassez de energia.

 

João Bosco Rabello escreve no Capital Político. Ele é jornalista há 40 anos, iniciou sua carreira no extinto Diário de Notícias (RJ), em 1974. Em 1977, transferiu-se para Brasília. Entre 1984 e 1988, foi repórter e coordenador de Política de O Globo, e, em 1989, repórter especial do Jornal do Brasil. Participou de coberturas históricas, como a eleição e morte de Tancredo Neves e a Assembleia Nacional Constituinte. De 1990 a 2013 dirigiu a sucursal de O Estado de S. Paulo, em Brasília. Recentemente, foi assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública

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