Consumidores travam batalha contra inflação recorde em 21 anos

Os aumentos dos preços dos combustíveis ganharam força em agosto, tendo exercido pressão suficiente para alçar o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 0,87% à maior alta para o mês desde 2000 (1,31%), informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dona do maior impacto individual sobre o indicador oficial da inflação no Brasil, a gasolina encareceu 2,80%, mas não esteve sozinha no carro-chefe dos reajustes. Houve destaque também para as remarcações de 4,50% do etanol, 2,06% do gás veicular e 1,79% do óleo diesel. As fartas altas preocupam em meio à tensão provocada pela crise entre o Palácio do Planalto e o Judiciário, que frustra as expectativas no mercado financeiro para a recuperação da economia e tende a reforçar a elevação do custo de vida.
Com o aumento registrado em agosto, a inflação acumula variação de 5,67% neste ano e fura a meta definida pelo Banco Central para 2021, de 3,75%, considerando-se, ainda, margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Em um ano, o IPCA atingiu 9,68% na média nacional e se depara com o fantasma dos dois dígitos em oito regiões metropolitanas, de Curitiba (12,08%), Vitória (11,07%), Goiânia (10,54%), Campo Grande (11,26%), São Luís (11,25%), Porto Alegre (10,42%), Rio Branco (11,97%) e Fortaleza (1,20%).
A Grande Belo Horizonte mostrou a menor variação do IPCA em agosto no país, de 0,43% – num empate com a área metropolitana de Fortaleza –, mas não significa alívio. O IBGE destacou alta importante do transporte por aplicativo na Região Metropolitana da capital mineira, de 0,94%. Não fossem as quedas de 20,05% do preço das passagens aéreas e de 13,73% da taxa de água e esgoto, a pressão sobre a inflação teria sido bem maior. O IPCA subiu 5,06% no acumulado do ano e 9,67% no período dos últimos 12 meses em BH e entorno.

O analista da pesquisa do IBGE André Filipe Guedes Almeida observou que oito dos nove grupos de produtos e serviços acompanhados pelo instituto tiveram aumento de preços em agosto, e os transportes registraram a principal alta, de 1,46%. “O preço da gasolina é influenciado pelos reajustes aplicados nas refinarias de acordo com a política de preços da Petrobras. O dólar, os preços no mercado internacional e o encarecimento dos biocombustíveis são fatores que influenciam os custos, o que acaba sendo repassado ao consumidor final”, afirmou. Os brasileiros já pagaram reajustes de 31,09%, em média, de janeiro a agosto, do preço da gasolina; 40,75% do etanol e 28,02% do diesel, segundo o IBGE.

Futuro incerto Na vice-liderança dos gastos das famílias em agosto ficaram a alimentação e bebidas, com alta de 1,39%. Segundo o IBGE, os aumentos com a alimentos e bebidas em domícilio passaram de 0,78% em julho para 1,63% no mês passado. Eles refletem, em especial, remarcações de preços da batata-inglesa (19,91%), café moído (7,51%), frango em pedaços (4,47%), frutas (3,90%) e carnes (0,63%).
Na direção oposta, contribuíram para segurar o IPCA as quedas de preços da cebola (-3,71%) e do arroz (-2,09%). O resultado do IPCA fez crescer a preocupação com a trajetória dos preços, na avaliação da chefe de economia da corretora de investimentos Rico Rachel de Sá. “Essas pressões devem seguir presentes nos próximos meses, fazendo com que nossa projeção para a inflação no final do ano (hoje em 7,7%) se eleve ainda mais”, afirma.

Malabarismo na hora da compra

Deixar o carro em casa ou dividir a conta no posto de combustíveis com um colega de trabalho que se transformou em caroneiro. As opções para fugir da inflação da gasolina não são muitas, mas têm sido essenciais para ajudar a reduzir o orçamento, o que se tornou ainda mais difícil nos supermercados. É nessa luta diária que os consumidores estão vivendo, na expectativa de algum alívio no custo de vida.
Revoltada com o “absurdo” que vê nos seguidos reajustes dos preços dos combustíveis, a farmacêutica Bárbara Ribeiro, de 30 anos, contou ao Estado de Minas que só continua a trabalhar com o carro após ter decidido dar carona a uma vizinha, que é colega de trabalho, compartilhando o gasto com combustível. “Acho que tudo está aumentando. A comida está mais cara, a gasolina… nem carro usado você não consegue mais comprar”, reclama.
O desembolso de Bárbara para encher o tanque do carro com gasolina passou de R$ 130 para mais de R$ 230.“É uma má gestão federal. Isso vem de cima. Se a gente tivesse feito algumas coisas antes a gente não passava o que está passando agora”, diz ela, indignada com o governo.
No mesmo posto, localizado na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, outra motorista demonstra insatisfação com o preço pedido. “Totalmente fora da realidade e sem conexão com o salário mínimo. Tudo bem que estamos num bairro de classe média-alta, mas está caro pra todo lado. Eu encho o meu tanque e deixo R$ 300 reais no posto de gasolina. Isso não está certo. É difícil manter o carro, IPVA, seguro e tudo mais”, desabafa a fisioterapeuta Bárbara Costa, de 37.
Ela diz que tenta entender o porquê do alto custo para se deslocar em veículo particular e procura outras alternativas, como o transporte por aplicativo – outra dificuldade. “Se tem demanda, tem oferta, não sei porque não consegue melhorar o preço. Às vezes eu consigo fazer algumas coisas a pé, mas sei que essa não é a realidade de muita gente”.
No supermercado, o aperto se repete. “Cada dia mais caro, subiu tudo, só o salário que não sobe”, lamenta a faxineira Elane Rodrigues Santos, de 46 anos, ao sair do estabelecimento. No carrinho, ela leva a cesta básica que ganhou da prefeitura. Não gastar com o alimento básico traz algum alívio para ela e o marido, que trabalha como servente de pedreiro, no sustento dos dois filhos do casal– um menino de 10 anos e uma jovem de 21.
“Ouvi falar que o gás de cozinha vai subir mais ainda, isso é um absurdo. A gente não sabe onde vai parar. Lá em casa nós estamos conseguindo manter a carne por enquanto, mesmo com o preço caríssimo, mas está difícil”, diz Elane. Ela atribui a dificuldade para colocar comida na mesa à postura do presidente Jair Bolsonaro. “O presidente não ajuda, só fala besteira e fica brigando igual um cachorro”, opinou.
Vanessa Pereira, de 28, está há um mês desempregada e se preocupa com o sustento da casa, já que o marido, que trabalha como vigia, teve de assumir toda a despesa. “Está tudo bem caro. Isso é muito ruim, principalmente pra gente que já está passando dificuldade. Praticamente tudo no supermercado está difícil de comprar”, reclama. (DL)
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