Diante de nova crise hídrica, governo Doria cria programa de poços artesianos para aliviar abastecimento em cidades de SP

GONÇALVES (MG) – Diante de uma nova crise hídrica que já impacta os principais reservatórios paulistas de abastecimento de água, a gestão Doria (PSDB) encontrou uma solução alternativa no fundo do poço. Ou melhor, dos poços.

O governo de São Paulo anuncia, nesta quinta-feira (7), em coletiva à imprensa no Palácio Bandeirantes (zona oeste da capital paulista), um programa de perfuração de poços artesianos tubulares que deve atender 2,1 milhões de pessoas no estado.

Os municípios contemplados têm um perfil: são, em sua maioria, de pequeno porte e não contam com recursos suficientes em caixa para ampliar seus sistemas locais de abastecimento.

Serão contempladas 120 cidades na iniciativa batizada de “Água é Vida”. Um edital, que ainda será publicado este mês, vai abrir um processo licitatório de escolha da empresa que fará a construção dos poços.

Marco Vinholi, secretário de Desenvolvimento Regional, explica que os municípios atendidos já enfrentam, de um lado, escassez de água devido ao assoreamento de rios e, de outro, alta demanda pelo líquido em razão do calor e da falta de chuva.

“O programa vai priorizar as cidades que não estão sob a concessão da Sabesp (SBSP3). São gestões que administram localmente os seus sistemas de captação e abastecimento de água”, afirma o secretário.

A Sabesp atua na distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto em 370 cidades paulistas. Outros 275 municípios mantêm os serviços sob a gestão das prefeituras.

Os 155 municípios que ficaram de fora da iniciativa são mais populosos, detêm estrutura e maior arrecadação de impostos, segundo o governo paulista, para reforçar seus serviços de captação e distribuição de água.

O programa vai contar com cerca de R$ 140 milhões em recursos oriundos do estado na perfuração de 138 poços tubulares. O número sinaliza que alguns municípios receberão mais de uma unidade de captação de água devido às condições topográficas e outras variantes de solo.

Marcos Penido, secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente do governo Doria, afirma que geólogos do DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica), autarquia responsável pela gestão dos recursos hídricos do estado de São Paulo, fizeram estudos de viabilidade para o acesso aos aquíferos que correm no subterrâneo das cidades.

A água captada a partir dos poços vai encher um reservatório anexo, que também será construído e terá capacidade para armazenar 200 mil litros do líquido. O passo seguinte será conectar essa fonte complementar de água às redes de distribuição dos municípios.

“Estamos preocupados com o futuro da perenização do abastecimento. Já passamos pela crise hídrica, em 2014, e estamos diante do mesmo problema agora. A nossa ideia, com esses poços, é garantir mais segurança hídrica à população dos municípios com menos recursos”, diz Penido.

A solução não é nova. Ribeirão Preto, cidade do agronegócio localizada a 314 km de São Paulo, é inteiramente abastecida por 120 poços profundos que captam, em média, cerca de 11.860 mil m³ de água por mês.

O Daerp (órgão responsável pela gestão da água e do esgoto de Ribeirão) informou ao InfoMoney que a água disponível é oriunda do Aquífero Guarani, uma imensa caixa d’água subterrânea ficada nos territórios de Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil (com grande ocorrência pelo estado de São Paulo).

Por causa disso, por lá, não existe “uma dependência da sazonalidade das chuvas para garantir o abastecimento”, diz. Mas em função da longa estiagem, a maior causadora do aumento na demanda de consumo, o município vem utilizando bombas com maior vazão e eficiência em vários poços. “Mas temos orientado a população a evitar o desperdício de água”, afirma o Daerp.

As águas subterrâneas assim como as da superfície são um recurso finito e, se mal exploradas, também podem acabar.

Na Recife (PE) do final dos anos de 1990, uma crise hídrica de grandes dimensões impôs uma corrida por soluções alternativas de abastecimento de água, e uma delas foi a perfuração de poços artesianos.

Na época, o uso desenfreado de perfurações na terra em busca de água subterrânea provocou uma superexploração do sistema e deixou muitos poços secos.

Jornais locais relatam que a construção das estruturas foi tamanha que todos os prédios diante da badalada praia de Boa Viagem contavam com um poço artesiano — um do lado do outro.

Penido disse ao InfoMoney que, como o projeto está sob o guarda-chuva do DAEE, a captação seguirá os padrões técnicos exigidos tendo o controle da qualidade da água captada pelos poços aferido periodicamente para evitar possíveis contaminações.

Serão beneficiados com os poços artesianos os municípios de Águas de Lindóia, Altinópolis, Américo Brasiliense, Américo de Campos, Analândia, Aparecida, Areias, Ariranha, Avanhandava, Balsamo, Barbosa, Bariri, Batatais, Bilac, Boa Esperança do Sul, Borborema, Borebi, Braúna, Brodowski, Brotas, Cafelândia, Cajobi, Campos Novos Paulista, Cândido Mota, Canitar, Cedral, Cerqueira César, Chavantes, Clementina, Colina, Cosmorama, Cristais Paulista, Cunha, Descalvado, Dobrada, Dracena, Embaúba, Guaiçara, Guaíra, Guapiaçu, Guaraçaí, Guarantã, Guararapes, Herculândia, Ibitinga, Igaraçu do Tietê, Ilha Solteira, Ipaussu, Ipeuna, Ipiguá, Irapuru, Itajú, Itápolis, Itapuí, Itirapina, João Ramalho, Júlio Mesquita, Junqueirópolis, Lavínia, Luiz Antonio, Martinópolis, Mendonça, Mirandópolis, Mirassolândia, Monte Azul Paulista, Morro Agudo, Motuca, Murutinga do Sul, Natividade da Serra, Neves Paulista, Novais, Ocauçu, Olímpia, Ouro Verde, Pacaembú, Palmital, Paraíso, Parisi, Pindorama, Piquete, Pirangi, Pitangueiras, Pompéia, Pontal, Porto Feliz, Pradópolis, Presidente Venceslau, Rancharia, Reginópolis, Ribeirão Bonito, Rincão, Rio das Pedras, Sabino, Sales, Sales Oliveira, Santa Adélia, Santa Lúcia, Santo Antonio da Posse, Santo Antonio do Aracanguá, São José da Bela Vista, São José do Barreiro, São Pedro, São Pedro do Turvo, São Simão, Serrana, Severínia, Suzanópolis, Tabapuã, Tabatinga, Taiaçu, Taiuva, Tambaú, Tanabi, Tietê, Trabiju, Tupi Paulista, Ubarana, Uchoa, Vera Cruz e Vista Alegre do Alto.

Outras frentes

O programa do estado que busca reforçar as estruturas de abastecimento de água nos municípios paulistas também atua em outras duas frentes.

Serão feitos barramentos em cursos d’água nas regiões de Itu, Salto, Cabreúva e Indaiatuba. O procedimento aumenta a quantidade de água disponível para captação. Os municípios obtiveram um financiamento de R$ 50 milhões e contarão com mais R$ 70 milhões do estado para as obras, que serão licitadas em breve.

Segundo Penido, titular da pasta de Infraestrutura e Meio Ambiente, as cidades de Piracicaba, Analândia, Charqueada, Cordeirópolis, Corumbataí, Ipeúna, Itirapina, Rio Claro e Santa Gertrudes têm projeto semelhante, mas que ainda está em fase inicial.

Outra iniciativa, com investimentos previstos na ordem de R$ 90 milhões, será o desassoreamento de 3.000 km de rios e a proteção de nascentes pelas bacias hidrográficas do estado.

Sistema Cantareira na crise hídrica de 2014

Sinal de alerta

O alerta sobre a situação dos reservatórios de São Paulo ganhou outra dimensão com a situação do nível do Sistema Cantareira, responsável por abastecer a região metropolitana de São Paulo.

Desde o último sábado (2), o local encontra-se na faixa de alerta, com o nível da água caindo dia após outro. Nesta quinta-feira (7), o Cantareira operava com 29,2% de sua capacidade.

Segundo a escala criada pela Sabesp para medir o volume útil dos reservatórios e classificar a gravidade da situação, quando o nível é igual ou maior que 60%, a situação é normal; em estado de atenção quando é igual ou maior que 40% e menor que 60%; em alerta quando está maior que 30% e menor que 40%, e em restrição quando é maior que 20% e menor que 30%.

De acordo com a empresa, para que o manancial seja colocado em fase de restrição, é necessário que o índice esteja abaixo dos 30% no último dia do mês, o que não aconteceu em 30 de setembro quando a capacidade era de 30,35%.

O Sistema Cantareira é formado por cinco reservatórios (Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro) conectados entre si e é responsável por abastecer 46% da população da região metropolitana de São Paulo.

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