Entenda os efeitos da incontinência verbal de Bolsonaro sobre a economia

O reflexo da política na economia tem sido intenso nas últimas semanas, principalmente após os atos do último dia 7 de setembro. As declarações antidemocráticas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no feriado da Independência, fizeram derreter os agentes econômicos no dia seguinte.

O mau humor do mercado só passou quando o mandatário do país divulgou uma declaração pacificadora à nação, em que tentou se desculpar pelas acusações contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e atribuiu ao “calor do momento” os discursos inflamados nos atos em Brasília e São Paulo.

Na política, cada frase provoca barulho, principalmente quando é proferida pelo chefe do Executivo. Esse ruído impacta diretamente a percepção dos investidores nacionais e estrangeiros sobre o país. O ministro da Economia, Paulo Guedes, por exemplo, se esforçou nessa sexta-feira (10/9) para tentar convencer esse grupo de que as palavras de Bolsonaro eram apenas “palavras” e que o presidente nunca partiu para a ação nem ultrapassou os limites da Constituição.

Na avaliação de economistas ouvidos pelo Metrópoles, é vasta a literatura econômica sobre a importância da harmonia entre as instituições para a estabilidade fiscal e monetária do país, uma vez que incerteza, para a economia é risco. E risco representa juros mais altos, o que atravanca o poder de compra do consumidor, seja para abastecer o carro ou para garantir o mercado do mês.

Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão que orienta o Senado sobre decisões relacionadas às contas da União, afirmou que esse cenário também influencia no pagamento da dívida pública e chamou a atenção para o fato de que as previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estão sendo revisadas para baixo.

“As turbulência no cenário político-institucional aumentam a percepção de risco dos agentes econômicos, que exigem mais juros para financiar a dívida pública vincenda. Tanto é assim que as projeções para 2022 estão sendo revisadas para baixo. O crescimento poderá ficar abaixo de 2%”, disse à reportagem.

“Uma condição necessária, mas não suficiente, para o crescimento, é ter estabilidade institucional, respeito às regras do jogo. Isso vale como regra geral. Não é diferente agora”, completou.

Agentes domésticos

Na quarta-feira (8/9) pós feriado, o dólar fechou em forte alta de 2,93%, vendido a R$ 5,3276. O resultado configurou a valorização percentual diária mais intensa desde 24 de junho de 2020, quando houve alta de 3,36%. O fechamento é o maior desde 23 de agosto (R$ 5,3802).

Como consequência, os consumidores podem esperar o aumento do preço da gasolina, do gás, das commodities e de alguns alimentos básicos do dia a dia. Esses custos inflacionados empobrecem o país, de acordo com Elena Landau, ex-diretora do BNDES no governo de Fernando Henrique Cardoso.

“As falas antidemocráticas são de uma gravidade institucional muito grande. Isso empobrece o Brasil de todas as formas. Não se investe em educação, crescimento do país e produtividade. Ao mesmo tempo, gera mais inflação, juros e desvalorização do câmbio. E as pessoas continuam desempregadas vivendo uma pobreza crescente”, afirmou.

Em relação às previsões de longo prazo, a economista avalia que as perspectivas “são muito ruins” e que a única forma de virar o jogo seria o impeachment.

“O Brasil agora está na mão do Arthur Lira (PP-AL), que deveria parar todas as reformas e dar andamento ao processo de cassação do mandato do presidente. Temos um presidente golpista. Não tem ninguém que vá investir nesse país”, destacou.


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Com o acirramento da tensão política, as empresas de capital aberto na bolsa de valores brasileira (a B3) perderam R$ 195,3 bilhões em valor de mercado na quarta-feira (8/9). As companhias mais prejudicadas foram a Petrobras (queda de R$ 19,6 bilhões), Ambev (R$ 15,4 bilhões), Itaú (14,3 bilhões), Bradesco (R$ 12,2 bilhões) e Vale (R$ 10,1 bilhões).

No início da semana, as ações somavam R$ 5,257 trilhões. Na quarta, já valiam R$ 5,061 trilhões. A tempestade começou quando Bolsonaro declarou que passaria a não cumprir decisões proferidas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

“Juramos respeitar a nossa Constituição. O ministro específico do STF perdeu as condições mínimas de continuar dentro daquele tribunal. Não podemos continuar aceitando que uma pessoa específica continue paralisando a nossa nação. Não podemos aceitar. Ou esse poder [Judiciário] pode sofrer aquilo que nós não queremos. Sabemos o valor de cada poder da República”, assinalou Bolsonaro durante o protesto.

Ex-secretário de Assuntos Econômicos do Ministério de Planejamento do governo de José Sarney, o economista Raul Velloso fala sobre as consequências de declarações do tipo.

“A fala introduz incerteza no meio econômico, porque joga a sensação de que podem acontecer várias coisas ruins para o país. Vem na cabeça das pessoas a sensação de que ele pode estar cometendo crime de responsabilidade, o que pode culminar num impeachment”, explicou.

“Quem tem aplicação financeira no Brasil percebe esse movimento, e a primeira reação é transferir suas ações daqui para o exterior”, ponderou Velloso.

O comportamento de Bolsonaro está sendo acompanhado cada vez com mais atenção por investidores—que temem, sobretudo, uma ruptura institucional. Discursos democráticos vão ao encontro do que espera o mercado. Assim que o presidente divulgou uma nota pacificadora escrita em conjunto com o ex-presidente Michel Temer, por exemplo, a bolsa de valores teve uma alta de 2,6%.

A resposta à declaração foi imediata, uma vez que o alívio entre os Poderes é a única forma de reduzir o estresse da curva de juros e da economia como um todo.

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