‘Faces Negras’: Adriana Barbosa, a empreendedora que pautou questões raciais a partir de demandas de consumo


Nos 15 anos do G1, conversamos com a fundadora da Feira Preta, CEO da PretaHub e vencedora do Troféu Grão do Prêmio Empreendedor Social. ‘Faces Negras’: Adriana Barbosa
Todos os anos, no fim de novembro, São Paulo é palco do maior festival de cultura negra da América Latina. Uma série de eventos reúne atrações artísticas de peso e fomenta os negócios de centenas de empreendedores que expõem produtos voltados para a cultura afro.
Adriana Barbosa, de 44 anos, é quem lidera a iniciativa, que começou há 20 anos em uma barraca de troca na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros. Nos primeiros anos de formação do evento, chegou a enfrentar um abaixo-assinado dos moradores pela saída da Feira Preta e do público que ela atraía.
A empresária hoje acumula prêmios de empreendedorismo social e esteve entre os brasileiros que ocuparam uma posição na lista das 51 pessoas negras mais influentes do mundo pela Mipad (Most Influential People of African Descendent) em 2017. Taís Araújo e Lázaro Ramos foram os outros dois nomes que dividiram a posição.
CEO da aceleradora de negócios Pretahub, Adriana conta a evolução das pautas raciais a partir das demandas de consumo da população negra, mas não descarta o protagonismo dos movimentos sociais na luta por equidade.
No mês em que completa 15 anos, o G1 traz uma reflexão sobre temas impactantes para o país e a evolução deles ao longo dos tempos. Na primeira reportagem especial, ‘Faces Negras’, conversamos com personalidades de variadas gerações que superaram as barreiras do racismo. São relatos de histórias e experiências que envolvem a cor da pele, a luta contra o preconceito, as dificuldades e o orgulho de ser preto. Conheça Adriana, Babu, Daiane, Fábio, Fatou, Glaucia, Isaac, Ivanir e Luciane.
Adriana por Adriana:
Empreendedora Adriana Barbosa
Divulgação
“Não tem como a gente olhar para frente se não souber de onde vem. E viemos de movimentos coletivos. Muitas pessoas que vieram antes de mim compartilharam esse bastão [da igualdade racial]. Se, na escola, eu me perguntava o que queria dizer ser ‘aquela menina negra’, nos bailes black fui entender o que é ser uma pessoa preta com sua cultura, seus costumes, suas visões.
Finco o pé nesse processo de reconhecimento quando começo a fazer a Feira Preta. Ali, muitas pessoas se reconheceram negras a partir da beleza dos seus iguais. A gente vem de um contexto de reivindicação de direitos e identidade pelo movimento negro organizado, pelas ações afirmativas e pelos movimentos culturais, o que vai para um processo de reivindicação no consumo e empregabilidade.
Quando você dá oportunidade para a população negra de saber que ela vem de uma condição de realeza, beleza, história, potência, ela vai fazer parte dos processos de transformação e mudar tudo o que estiver no entorno dela. E esse é o grande medo de que a gente se reconheça nesse lugar de potência porque, à medida em que isso acontece, a gente vai disputar espaços.
Adriana Barbosa é fundadora da Feira Preta e CEO da PretaHub
Jef Delgado
Pessoas negras são maioria populacional no Brasil. E o fato de o país ter a segunda maior população negra do mundo e a maior das Américas vem pelo processo de autodeclaração reforçado nos últimos censos. Quando o IBGE bate à nossa porta e a gente se autodeclara negro, esse fortalecimento vem de um processo de lutas de décadas do Movimento Negro.
Há 15 anos, quando a Feira tinha cinco anos, tive uma enorme dificuldade de fazer captação de recursos porque as empresas não entendiam: ‘Como assim, Feira Preta? Não. Não vou patrocinar um evento que se chama Feira Preta’.
Quando isso começou a atravessar meu trabalho, pensei: ‘Se eu vou em uma empresa e falam que não querem porque acham que a questão racial é um conflito, eu preciso fazer alguma coisa.’
Passados 15 anos, foi um processo muito emblemático. A gente teve muitas marcas parceiras, apoiadoras, e boa parte da interlocução era de pessoas negras em cargos de liderança.
À medida que pessoas negras com consciência racial estão dentro das corporações, elas conseguem alargar e expandir o tema a ponto de provocar transformações.
O tema da empregabilidade foi uma caixa de Pandora aberta. Por mais que a gente ainda não tenha chegado nesse lugar de equidade racial, avançamos muito no processo de letramento e sensibilização. Estamos em uma fase de nos perguntarmos onde estão os negros em cargo de liderança. Isso é importantíssimo.
Há coisas que ainda não estão legais: essa pandemia colocou uma lupa na desigualdade, essa desigualdade tem cara e é uma cara preta.
A questão da educação, dos jovens não conseguirem estudar, desemprego, moradia, alimentação. A gente falava de combate à fome na década de 80 e volta a falar de fome e pobreza agora. A gente avançou em muita coisa, mas ainda desponta em altos índices de desigualdade e enfrenta muitos problemas da perspectiva das políticas públicas.
Estou sempre aberta ao diálogo. Acho que a construção das questões raciais não é feita só com pessoas negras, mas também com os povos originários e as pessoas brancas. Agora, é inegociável eu ir para um processo dito diverso, mas ser apenas uma figura ilustrativa e não poder exercer toda a especificidade.
Nunca vou me esquecer da ocasião em que fomos convidados para um evento no qual nos queriam e insistiram que levássemos acarajé. Em um determinado momento, o óleo do dendê começou a cheirar disseram: ‘Tira esse dendê daqui’. Tive que brigar muito porque o dendê faz parte da nossa cultura. Foi uma coisa corriqueira, mas é uma simbologia de quem quer que eu esteja nesses lugares só pela diversidade. Para mim, é inegociável não poder ter voz.”
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