‘Faces Negras’: Babu Santana busca abrir espaços antes proibidos para negros


Nos 15 anos do G1, conversamos com o ator que contou como o racismo atravessou sua vida e como fez dessa interferência uma possibilidade de discurso e mudança: ‘400 anos de repressão’. ‘Faces Negras’: Babu Santana
Alexandre Santana, 41, mais conhecido como Babu Santana, aprendeu desde novo a importância de ressignificar situações e momentos da vida. A começar pelo apelido, inicialmente chamado de babuíno – fruto de bullyng racista na escola -, virou Babu ao encontrar o colega assediador e aceitar suas desculpas e a nova adaptação do apelido. Virou nome artístico.
Ele também ressignificou o medo que sentia da polícia, de tanto que era revistado na adolescência, sua percepção da beleza negra e sua participação no Big Brother Brasil 20.
De ator famoso que iria só se expor em um reality show, preferiu expor ideias sobre racismo, autoafirmação preta e empoderamento feminino. Não agradou muito lá dentro – virou campeão de paredões do programa, com 10 no total —, mas foi muito festejado fora da casa do BBB.
No mês em que completa 15 anos, o G1 traz uma reflexão sobre temas impactantes para o país e a evolução deles ao longo dos tempos. Na primeira reportagem especial, ‘Faces Negras’, conversamos com personalidades de variadas gerações que superaram as barreiras do racismo. São relatos de histórias e experiências que envolvem a cor da pele, a luta contra o preconceito, as dificuldades e o orgulho de ser preto. Conheça Adriana, Babu, Daiane, Fábio, Fatou, Glaucia, Isaac, Ivanir e Luciane.
Babu por Babu:
Babu Santana
Globo/Victor Pollak
“Cria do Morro do Vidigal, sou fruto de uma família muito politizada, que teve uma tia alfabetizada aos 13 anos, mas com tempo suficiente para virar professora de letras, tio advogado, avô que fazia parte de escola de samba.
Muitas das conversas que eu tinha no Big Brother, por exemplo, eram conversas que eu tinha naturalmente na minha casa. Neste sentido, sempre tive muita noção de quem eu era, de coletivo.
Mas quando fui fazer teatro no ‘Nós do Morro’, é que fui debater quem éramos nós naquela loucura toda da sociedade, com questão racial. Tinha o moleque branco da favela que demorava a entender o privilégio dele porque também estava na favela, tomando dura da polícia junto com a gente, na dureza social dele.
Mas a gente começou a estudar a questão histórica, a entender nos mínimos detalhes e criar defesa contra o racismo. Foi ali que eu fui entender por que só tinham três pretinhos – contando comigo -, no meu jardim de infância. Ali eu fui entender por que aos 13, 14 anos, eu levava dura da polícia todos os dias quando eu estava indo para a escola. Tinha dias que era indo, outros vindo. Mesmo estando uniformizado, arrumado, com roupa de escola particular, mas isso não me livrava da revista policial.
Quando você nasce preto, essas questões vão te atravessar e todas as suas posturas são posturas políticas e sociais desde sempre.
Mesmo no teatro, eu já tive que lidar com questões de querer fazer o papel de Romeu e uma pessoa dizer: “Você não pode fazer porque não tem o perfil de Romeu”.
Mas o que é o perfil de Romeu? Só posso fazer se for o Otelo? Mas é teatro, cara! Você pode fazer qualquer coisa. Então, como não abordar essas questões no BBB?
Babu Santana no BB20: cabelo black e garfo para pentear viraram suas marcas registradas no programa
TV Globo
Acho importante a gente expor as coisas que eram consideradas mimimi. Como a questão do cabelo, que as pessoas foram questionando, questionando, e hoje é um empoderamento. É aí que os defeitos vão começar a ser vistos como qualidades, com beleza. A gente tem que começar a admirar o nosso cabelo, nosso nariz de batatinha, nossa boca grande, nossa testa mais avançada. São características de um povo, e isso te liberta. Então, respeita a nossa história.
Há pouco mais de 100 anos, éramos um país com escravidão garantida na lei. Agora temos que resgatar a autoestima de um povo que foi oprimido, que foi ensinado que suas características são feias, seus costumes são feios, sua religiosidade é do mal. Estamos tendo que recuperar 400 anos de repressão.
Eu tenho essa consciência e, quando fui exposto em um ambiente em que eu era minoria — mesmo sendo maioria no meu país —, tive que criar um debate, usar isso. Participei de um programa maravilhoso, mas o equilíbrio de ações não se equivale ao tamanho do negócio. É um reflexo da sociedade.
Minha onda hoje é estar presente em locais que eram negados para os corpos pretos, poder inspirar uma galera. São coisas assim que aumentam a presença negra na publicidade, a indústria começa a fazer produtos específicos para negros, gera debate nas mídias sociais, o que gera mais conscientização.
É claro que precisamos avançar em políticas públicas sérias, como as cotas, ter mais consciência individual de perceber que o racismo, por mais leve que pareça, fere. Até quando o nosso nariz vai incomodar? Até quando ele vai ser referência estética ruim? Tem muita coisa no racismo estrutural a ser mexido.
Também falta a gente se unir mais, o discurso pode virar mais contundente, defender e se apoiar mais. Mas o Ubuntu está acontecendo e quanto mais falarmos sobre, mais vão se acostumar e vai ser bom para todo o mundo, não só para o preto.”
Babu Santana: “O Ubuntu está acontecendo”
Globo/Victor Pollak
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