‘Faces Negras’: Fábio Tavares conta como foi transformar a universidade para receber alunos cotistas


Nos 15 anos do G1, conversamos com um dos idealizadores do coletivo DeNegrir, voltado para alunos negros da Uerj e ex-aluno da terceira turma de cotistas da universidade. ‘Não nos queriam lá’. ‘Faces Negras’: Fábio Tavares
O Fábio Tavares de 2001 era um jovem da periferia de 22 anos, que mal tinha lido um livro na vida. Morador da Zona Norte do Rio de Janeiro, trabalhava, ajudava a família desde os 13 anos e estava feliz com isso.
Mas um acidente de moto tirou o garoto do serviço braçal e o fez procurar uma alternativa. A solução? Estudar. Ele entrou para um pré-vestibular ligado à ONG Educafro, que ajuda jovens negros a chegar à universidade. Criou consciência social e racial e ingressou na terceira turma de cotistas da Uerj, em 2005. Hoje, conta como ajudou a mudar a visão da universidade que se abria para jovens negros e periféricos de dentro para fora.
Agora aos 42 anos, o professor e mestre em Ciências Sociais contribui ainda para uma nova visão de seus alunos.
No mês em que completa 15 anos, o G1 traz uma reflexão sobre temas impactantes para o país e a evolução deles ao longo dos tempos. Na primeira reportagem especial, ‘Faces Negras’, conversamos com personalidades de variadas gerações que superaram as barreiras do racismo. São relatos de histórias e experiências que envolvem a cor da pele, a luta contra o preconceito, as dificuldades e o orgulho de ser preto. Conheça Adriana, Babu, Daiane, Fábio, Fatou, Glaucia, Isaac, Ivanir e Luciane.
Fábio por Fábio:
Fábio Tavares, do coletivo Denegrir, da Uerj
Divulgação
“Lembro como se fosse hoje. Dia 27 de outubro de 2001. O ano que sofri um acidente de moto feio, da minha perna quase cair. Até então, aos 22 anos, como a maioria dos jovens pretos periféricos do Rio de Janeiro, eu mal tinha lido um livro, minha preocupação era só trabalhar para me manter. Filho de pobre não virando bandido, virando trabalhador, está ótimo, era como minha mãe entendia.
Eu trabalhava desde os 13 anos de idade. Já tinha trabalhado em padaria, oficina mecânica, mas com a perna daquele jeito, quem ia me querer?
A minha irmã, já assistente social na época, pensou da mesma forma e me indicou um pré-vestibular comunitário, para que pudesse ajudar aquele cara a estudar e a entrar na universidade pública. Já que não podia trabalhar, pelo menos que fosse estudar.
Por um acaso, o pré-vestibular em que fui parar era ligado à Educafro, uma ONG que luta para incluir negros e pobres nas universidades públicas, prioritariamente, ou em uma universidade particular com bolsa de estudos.
Manifestação do DeNegrir no STF a favor das cotas
Reprodução/Redes sociais
Até então, eu não tinha noção de nada, não tinha maturidade política, mas sempre tive vontade de aprender e sabia que o que eu ouvia ali, era bom para mim. Que as questões raciais levantadas em sala de aula dialogavam com a minha realidade.
Fiz pré-vestibular por dois anos, fui às manifestações pró-cotas na Uerj, e aquilo foi me pegando tanto que, eu que entrei no pré-vestibular para tentar uma vaga no curso de fisioterapia e ter uma noção maior de como consertar a minha perna, troquei para ciências sociais para entender melhor aquilo tudo que eu vivia. Não só o que eu vivia e ouvia, mas ter uma noção mais sociológica da coisa.
Em 2005, entrei na Uerj. Terceira turma a se beneficiar do sistema de cotas. Mas o sonho de ser um jovem negro e estudar em uma universidade pública ainda se deparava com piadas no ambiente acadêmico sobre os cabelos dos jovens negros que usavam dreadlocks ou sobre batas ou vestimentas coloridas de inspiração africana.
Fábio Tavares, hoje professor, segue conscientizando seus alunos sobre a importância da luta racial
Divulgação
E não só isso. Às vezes, nem era por maldade, mas ignorância mesmo. Os professores eram acostumados a discutir autores brancos no seu dia a dia, a gente que tinha que questionar sobre Fanon e Kabengele Munanga. Eles estavam desacostumados porque a universidade adotou as cotas, mas não fez uma reforma curricular.
A universidade não queria as cotas, elas foram um movimento de fora para dentro. As pessoas esquecem que a condição para você cursar uma universidade é você ter o ensino médio, mas, como não tem vaga para todo mundo, você cria a lógica do vestibular. Neste sentido, a Educafro, o Movimento Negro e muitos outros começaram a trabalhar com a ideia de colocar o máximo de negros na universidade pública.
Se tinha vaga no curso de estatística, por exemplo, a gente falava para o cara fazer o vestibular para estatística, entrar na universidade e depois tentar trocar para o curso que ele queria à medida que tivesse vaga sobrando.
Só que aí, a vice-reitora da época, Raquel Villardi, e seu grupo criaram a dinâmica da nota de corte. Que era o seguinte: não bastava mais você acertar 40% das questões objetivas e não zerar as discursivas para entrar. Você tinha que atingir uma nota mínima de corte para ser considerado apto ao curso.
Ou seja, se os pretos não atingissem a nota mínima de corte, as vagas reservadas para os pretos iam para o sistema universal. Era nítido que era um mecanismo para barrar a entrada dos negros na universidade. Não nos queriam lá.
Nesse momento, percebemos que tínhamos que nos organizar mais, chegar na frente, pensar antes por que o sistema não nos queria ali, com nossas dificuldade e peculiaridades. Foi assim que surgiu o DeNegrir, um coletivo de estudantes negros da Uerj, que entedia que precisava se organizar, chegar e brigar junto, além de fomentar outros coletivos. Ele existe até hoje, mas nesse início precisava de mobilização, de massa, e foi muito importante para pavimentar esse caminho.
Uma das primeiras ações foi estudar nossa história e começar a participar das reuniões dos departamentos e que podiam ou não ter decisões de interesse dos estudantes negros na universidade. Também começamos a participar do DCE, porque queríamos apoio político dos estudantes brancos.
Depois fomos nos organizando para termos uma sala de reunião e de referência para nossas atividades. Conseguimos na gestão do reitor Ricardo Vieiralves.
Somos um movimento que não é exatamente parte orgânica da universidade, mas que tem uma sala no 9º andar, onde nos reunimos, recebemos palestrantes ou professores visitantes de toda a América Latina, do continente africano e que é referência para os novos alunos que chegam. Estudante negro que chega na Uerj e precisa de alguma ajuda ou orientação é orientado a procurar o DeNegrir.
Ainda no início das cotas, por exemplo, vimos que todo estudante que queria participar de um congresso estudantil ia, pagava suas despesas e depois apresentava as notas para ser reembolsado pela universidade.
Mas um estudante negro cotista não tem dinheiro sobrando para pagar ida a congresso. Chegamos junto à universidade, conversamos, expusemos a dificuldade e colocamos a coisa de modo que eles pudessem adiantar a verba para a viagem para o cara poder participar.
A gente chegava com tudo certinho, com todos os dados, para que não tivesse dificuldade nenhuma ou possibilidade de negarem.
Esse caminho continua sendo pavimentado até hoje. O aluno negro que chega à Uerj tem esse apoio. Mas entendemos que a luta, mesmo hoje, 18 anos após o primeiro vestibular com cotas, ainda é grande.
É preciso conscientizar as pessoas que elas não fazem parte de um sistema meritocrático, que basta você lutar que você chega lá. O sistema é tão cruel que, até para o pobre que chega à universidade, a gente sabe que ele é o menos pobre. No meu caso, por exemplo, tinha uma infraestrutura familiar que me possibilitava isso, a ter o dinheiro da passagem para chegar à faculdade. E quem não tem? Faz como? Quando esse cara consegue vislumbrar a universidade, ele já é outro.
É engraçado porque atualmente sou professor, dou aula na Faetec e vejo meus alunos achando que todo mundo tem celular e internet. Preciso lembrar o tempo todo que nem para todo mundo é assim. As diferenças ainda existem e ainda é preciso lutar contra elas.”
Fábio Tavares: representação preta passou também pelo currículo da faculdade
Divulgação
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