‘Faces Negras’: Ivanir dos Santos revela como transformou sua história pessoal em luta por direitos coletivos


Nos 15 anos do G1, conversamos com o babalaô, de 67 anos, que é pós-doutor em História Comparada pela UFRJ, conselheiro estratégico do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa. ‘A luta é significativa para inspirar os outros’. ‘Faces Negras’: Ivanir dos Santos
Ivanir dos Santos, 67 anos, é mais conhecido por sua luta por direitos civis, com especial atenção às religiões de matriz africana — de que é seguidor e sacerdote —, e por sua atuação na política.
Mas um mergulho na vida do babalaô — sacerdote no candomblé dedicado ao culto de ifá —, mostra que a construção do homem, que é líder também em sua área de conhecimento, como pós-doutor em História Comparada pela UFRJ, se deu de maneira única e intrincada: negro, favelado, filho de prostituta, raptado da mãe aos 7 anos e ex-interno da Funabem.
No mês em que completa 15 anos, o G1 traz uma reflexão sobre temas impactantes para o país e a evolução deles ao longo dos tempos. Na primeira reportagem especial, ‘Faces Negras’, conversamos com personalidades de variadas gerações que superaram as barreiras do racismo. São relatos de histórias e experiências que envolvem a cor da pele, a luta contra o preconceito, as dificuldades e o orgulho de ser preto. Conheça Adriana, Babu, Daiane, Fábio, Fatou, Glaucia, Isaac, Ivanir e Luciane.
Ivanir por Ivanir:
Ivanir dos Santos: ele usou o resgate de sua história pessoal em luta por direitos coletivos
Divulgação
Eu tinha tudo para ser um grande marginal – como aliás falou para mim uma mãe de santo ao abrir um jogo de búzios: negro, favelado, filho de prostituta, raptado da mãe aos 7 anos e ex-interno da Funabem – para onde fui levado depois que perdi o contato com a minha mãe.
Mas essa mesma mãe de santo disse que um grande ancestre meu me acompanhava e ajudava a guiar os meus caminhos. Talvez isso explique como aquele jovem que cresceu sozinho e adorava ler foi para o caminho da música – e não do crime.
Meu primeiro ganha-pão foi como professor de música da Funabem, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor. Foi lá também o meu primeiro contato com a noção de direitos humanos.
Ao perceber que quem saía da instituição não conseguia ser incluído na sociedade, montei uma associação de ex-internos. Isso me levou ao meu primeiro contato com o movimento social, ou melhor, o Movimento Negro.
Ivanir dos Santos, babalorixá, pós-doutor e militante dos direitos humanos
Divulgação/Divulgação
Mas a oportunidade que eu vislumbrava, até então, era a que o mestre Pires – um professor de música da Funabem – oferecia aos melhores internos do lugar. Ele os levava para fazer prova para instituições militares para virar músico militar e ter uma carreira que ia de soldado a sargento rapidamente.
Mas mestre Pires não me escolhia. Dizia que eu não tinha “nascido para aquilo, que eu servia para advogado ou fazer política”.
Mestre Pires me escolheu para morar com ele e seu grupo de militares na Zona Oeste do Rio de Janeiro depois que eu saí da Funabem e não tinha para onde ir. Eu era o único não militar do grupo.
Ele também deu outra lição interessante, meio às avessas e que era dita pelas famílias da época, e que mostrava que o mundo não era igual para todos: ‘Vê se estuda para ser alguém na vida porque a cor não ajuda’.
Em 1979, com 25 anos, fui trabalhar com o que eu sabia, ser professor de música, e fazer aquilo que todos diziam para eu fazer: estudar.
Peguei um crédito educativo na Caixa Econômica e fui estudar pedagogia na faculdade Notre Dame, em Ipanema, na Zona Sul do Rio. Imagine a minha cabeça na época: sair de um lugar onde os jovens eram 99% negros e pobres para ir para outro onde os jovens eram 99,9% brancos e ricos.
Apesar disso, não sofri preconceito na faculdade. Tinha um espírito de liderança, era extrovertido e falante, nunca tive problema. Claro que tinha os olhares de estranhamento lembrando sempre que aquele ali não era o meu lugar.
Era a época do falso mito da democracia racial no Brasil, até havia a Lei Afonso Arinos, mas raramente alguém acionava porque nunca era preconceito.
Também tinham alguns enfrentamentos quando eu era chamado para ir à casa de algum colega e, ao chegar em algum prédio da Zona Sul carioca, o porteiro me mandava ir pelo elevador de serviço. Dizia que não estava indo ali fazer serviço para ninguém e que ia subir pelo social. Era sempre uma confusão (risos).
Nessa época, eu já fazia parte do Movimento Negro e sabia como me defender e responder. Em 1981, eu me inicio no candomblé e, ao contrário do que muita gente hoje possa imaginar, nunca tive problemas em frequentar a faculdade com as roupas do meu preceito.
Pelo contrário, o pessoal da elite vinha muito conversar comigo, tipo querendo uma consulta grátis (risos). Os ataques diretos não existiam. Existia a indiferença. A intolerância religiosa contra as religiões de matrizes africanas só começa a ser verbalizada quando os neopentecostais crescem e começam a demonizar publicamente. Não que as pessoas não pensassem assim naquela época, mas não verbalizavam a agressão.
A religião, assim como a luta pelos direitos humanos que desenvolvi ao longo da minha vida, sempre esteve na minha história. Ambas me trouxeram aonde estou e ajudaram a revelar quem eu sou.
Quando virei subsecretário estadual de Direitos Humanos, em 1999, por exemplo, fui a um evento na Praça Onze, no Centro do Rio, e descobri a Dona D’Bahia.
Alguém foi me apresentar a ela, e ela disse que já me conhecia, que me pegou pequenininho no colo e que minha mãe, a Sônia d’Mauriti – que era o codinome da minha mãe –, me levava todo domingo para passear. “Ela dizia que você era muito esperto, muito inteligente, e que seria doutor para defendê-la da polícia”, contou.
Também disse que minha mãe não havia se matado, como haviam me contado quando eu tinha 14 anos, mas que ela havia sido assassinada por um policial que jogou álcool e tacou fogo nela. Talvez, mesmo sem saber, eu tenha defendido os direitos de outros porque não pude defender para ela.
Foi assim que combati e denunciei o genocídio da juventude negra, grupos de extermínio, batalhei pelas mães de Acari, na Chacina de Vigário Geral e no Movimento Negro. Batalhei por isso porque sei que o ódio não resolve as coisas, assim como não tive ódio quando soube da história da minha mãe.
No Movimento Negro, ajudei a batalhar pela Lei Caó, que definia os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Mas a lei só ‘pegou’ em 1996, por causa de uma música do Tiririca, que falava ‘Olha o cabelo dela’. O debate, que muitos diziam que era censura, fez todo mundo parar para pensar sobre racismo.
Em 1995, entregamos ao presidente Fernando Henrique uma solicitação de políticas públicas para a população negra, e que impulsiona as discussões por cotas. Ela ganhou fôlego após a Conferência de Durban, em 2001, em que o Brasil se propôs a adotar ações afirmativas.
Hoje, vejo uma nova geração com massa crítica muito grande, com acesso à internet, que populariza os textos, as falas. Na minha época, o Movimento Negro falava para uma minoria. Hoje vemos o mercado discutindo questões raciais. Vários setores no debate. Só o governo federal que vai na contramão (risos).
Apesar disso, não se pode usar o discurso apenas para ganhar likes, é preciso saber que a luta ainda é grande, a juventude negra ainda morre, mulheres negras são desrespeitadas. Tenho um filho que é rastafári e tenho medo quando ele sai à noite. Mesmo ele sendo um homem adulto, que faz mestrado e é professor. Sei que ele pode ser alvo.
Todo mundo fala em racismo estrutural, mas as pessoas têm que entender o que são essas estruturas. Não é só uma pessoa que agride a outra e vai responder por isso no Código Penal, isso é insuficiente. A maior tarefa está no campo da educação.
Tem religioso que acredita que a lei que propõe ensinar sobre a África é para ensinar macumba na escola. A gente lida com uma visão iluminista ocidental do século 18 de que a África não tem história, não tem humanidade e não tem Deus. E os descendentes de africanos continuam nesse mesmo lugar.
A polícia ainda é ensinada com a teoria de Cesare Lombroso, que julga quem é honesto ou desonesto pela cor da pele. Essa polícia vai continuar discriminando. Precisamos mudar as estruturas das instituições.
Passei por muita coisa porque minha ancestralidade permitiu e sou o que eu sou graças a isso. A luta tem a ver com isso. Ela é significativa para inspirar os outros.
Quando eu volto para a academia aos 60 anos, para fazer mestrado, doutorado e o pós-doutorado, é muito mais para inspirar os jovens que passam por situações difíceis. Não venci por mim mesmo, mas me coloquei na luta pelos outros e por direitos que me foram negados.”
Ivanir dos Santos
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