França se torna inesperado destino de nove crianças afegãs

Separadas de suas famílias no caos no aeroporto de Cabul ou confiadas a estranhos por pais angustiados, nove crianças afegãs, sozinhas, chegaram à França, onde suas vidas estão agora entre parênteses.

A presença destes menores nos primeiros voos da ponte aérea Cabul-Paris surpreendeu as autoridades e associações presentes no aeroporto parisiense de Roissy para acolher aqueles que fugiam do regime talibã.

“Ficamos surpresos. Não tínhamos previsto”, lembra Alain Régnier, funcionário do governo para o acolhimento e integração de refugiados. “Recebemos nove no total. Os primeiros foram dois irmãos de 6 e 15 anos”, conta.

Como eles conseguiram chegar à França sozinhos? A confusão se deve ao fato de os menores possuírem os mesmos sobrenomes dos adultos que viajavam nos aviões de resgate.

“Achávamos que eram seus filhos, mas na chegada percebemos que não. Ficamos realmente em pânico”, diz o diretor de uma associação, que pediu para não ser identificado.

O diretor do Gabinete Francês para a Imigração e Integração (Ofii), Didier Leschi, explica que em Cabul, “em plena confusão”, os pais confiaram os menores a outros adultos, dificultando a sua detecção.

A Assistência Social para a Infância (ASE, na sigla em francês) cuidou das nove crianças para encontrar famílias de acolhida em Paris ou em sua região.

– “Reagrupamento familiar” –

“Eles chegaram com traumas psicológicos significativos”, aponta Dominique Versini, chefe de Proteção à Infância da prefeitura de Paris.

“Cuidamos deles, confortamos, cuidamos da sua saúde física e mental e então a ASE faz todo o possível para tentar contactar os seus pais quando sabemos quem são e estão vivos”, explica.

Alain Régnier garante que os menores “estão muito bem” e confirma que “o objetivo das próximas semanas é o reagrupamento familiar”.

Para quem tem uma família conhecida na França, mesmo que distante, “procuramos ver se podemos colocá-los nessas famílias de acolhimento, como por exemplo com um primo distante”, acrescenta o funcionário.

A Agência das Nações Unidas para a Infância (Unicef) expressou na terça-feira preocupação com o destino de 300 crianças desacompanhadas que foram retiradas do Afeganistão desde meados de agosto.

“Esperamos que o número aumente à medida que o trabalho de identificação continua”, alertou sua diretora-geral, Henrietta Fore.

“Quando essas crianças obtiverem o status de refugiados, do qual não tenho dúvidas, terão direito ao reagrupamento familiar”, afirma Laurent Delbos, da associação Forum réfugiés-Cosi e especialista em menores desacompanhados.

Mas primeiro é preciso encontrar a família.

Em um dos casos, já foi possível, enfatiza Régnier. Trata-se de um pai que acabou em um voo militar dos Estados Unidos e seu filho que, por outro lado, chegou à França. “Nós o trouxemos dos Estados Unidos para reencontrar sua família”, explicam.

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