Instituições de JF destacam importância da prevenção ao suicídio durante todo o ano

O mês de setembro é marcado por ações de conscientização e prevenção ao suicídio desde 2015, quando foi lançado o Setembro Amarelo. Apesar de a data incentivar o acolhimento a pessoas que sofrem com depressão e outras doenças mentais que causam sofrimento e podem levar ao autoextermínio, especialistas alertam para a necessidade de promover a prevenção durante o ano todo, principalmente durante e após a pandemia, que impactou significativamente a saúde mental da população. O Centro de Valorização da Vida (CVV) e os Centros de Atenção Psicossocial de Juiz de Fora fazem o trabalho de escuta e acolhimento de forma gratuita.

Conforme levantamento feito de forma independente pelo jornalista Fernando Gonçalves, que recolhe dados junto à Polícia Militar, ao Corpo de Bombeiros, ao Samu, à Polícia Rodoviária Federal e às unidades de saúde e cemitérios de Juiz de Fora, nos primeiro oito meses de 2021 foram registrados 43 suicídios na cidade. O número já ultrapassou o total de autoextermínios ocorridos ao longo dos últimos anos desde 2017. O maior índice, até então, tinha sido registrado em 2019, quando os órgãos de segurança verificaram a ocorrência de 40 casos, seguido por 2020, quando ocorreram 38 suicídios. A quantidade de tentativas de autoextermínio também já chega a 90, o que representa 65% ao total verificado durante todo o ano passado (138).

Para especialistas, os dados alertam para a necessidade de discutir e dar atenção a esse problema de saúde pública, considerando principalmente que a depressão foi apontada pelos órgãos de saúde como possível causa em 54% dos registros, cujas vítimas são, na maioria, pessoas jovens, na faixa etária de 19 a 30 anos. Entretanto, é preciso destacar que nem sempre os casos de suicídio estão ligados a doenças mentais, podendo ser causados por inúmeros e complexos fatores.

De acordo com a doutora em psicologia social, Adriana Woichinevski, alguns fatores podem estar ligados ao aumento do número de casos de suicídio durante a pandemia, como a vivência do medo da perda, o luto, o desamparo e a falta de esperança provocados pelo isolamento social. “Isto afeta a população de um modo geral, mas impacta de forma mais intensa uma população já vulnerável. Somado a isto, o afastamento das redes de proteção, do convívio com a família e amigos agrava ainda mais o quadro.”

Adriana ressalta que o pilar mais importante da prevenção ao suicídio é o tratamento eficaz do sofrimento mental. Para isso, é necessário investir em políticas públicas voltadas para uma atenção aos sinais e às possibilidades de prevenção, que propiciem educação sobre o tema e qualidade do acesso aos aparelhos de saúde mental. “A melhor forma de tratar continua sendo a ajuda de um profissional de saúde mental. Normalmente, a abordagem aqui é interdisciplinar, e precisa contar com apoio da família, dos amigos, da escola e de quem mais participar da rede de apoio.”

‘Precisamos quebrar o tabu’

“Falar é a solução” é o princípio do Centro de Valorização da Vida (CVV), que trabalha há 59 anos com prevenção ao suicídio. O serviço de escuta e acolhimento, que recebe ligações de todo o país, funciona o ano inteiro, de forma gratuita, 24 horas por dia. A pessoa que precisa de ajuda pode ligar para o telefone 188 e será atendida por pessoas capacitadas para ouvir. Segundo o presidente do núcleo em Juiz de Fora, Gerson Sobrinho, o trabalho é feito sem julgamentos e com sigilo absoluto para todos que procuram a organização.

Especialmente durante o mês de setembro, a organização promove a campanha “Ilumina Setembro Amarelo”, na qual entidades públicas e privadas são convidadas a iluminar a fachada de suas sedes na cor amarela, com o intuito de chamar atenção para o mês de prevenção ao suicídio e promover debates sobre o assunto. Devido à pandemia de Covid-19, a atuação de forma presencial está suspensa, porém, o CVV oferece palestras sobre o tema para escolas, faculdades, empresas e outras instituições.

“A maior ferramenta é a informação. Divulgar o nosso trabalho é de grande importância, e o Setembro Amarelo amplia a capacidade de falar sobre o tema. Vemos que é extremamente necessário. Precisamos quebrar o tabu e falar sobre o suicídio e esclarecer que ele pode ser evitado”, afirma Gerson. A CVV é composta por voluntários que oferecem ajuda, por meio de uma escuta atenta e conversas de maneira responsável e consciente.

Pandemia

Com a pandemia, a organização notou um aumento na demanda pela busca de ajuda tanto nas ligações quanto nos outros canais. “As pessoas nos ligam pelos mais diversos motivos, em momentos difíceis, de dor e até quando estão felizes e querem compartilhar com alguém. Independente do sentimento, o CVV está sempre pronto para acolher.”

O CVV realiza o acolhimento com sigilo pelo telefone (188), por e-mail e pelo chat, que podem ser acessados pelo site: https://cvv.org.br. Para ser um voluntário, o interessado precisa ser maior de 18 anos, saber ler e escrever e passar por um curso de capacitação. As inscrições podem ser feitas através do site https://cvv.org.br, clicando na barra “Voluntário”. “Não é preciso ter nenhum tipo de especialização, basta ter disponibilidade de tempo e querer doar este tempo para que precisa de ajuda”, explica Gerson.

Cuidados com a saúde mental serão ampliados com novo Caps

Também com o objetivo de ampliar e melhorar o acolhimento gratuito de saúde mental em Juiz de Fora, o Centro de Atenção Psicossocial (Caps Liberdade) ganhou uma nova sede no Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU/UFJF), inaugurada no último sábado (4). De acordo com a coordenadora do Caps Liberdade, Renata Souza, a mudança vai permitir uma ampliação que é fundamental para a cidade, especialmente neste contexto de pandemia, em que as condições de saúde mental foram agravadas. “Mais do que nunca deve-se investir nas ações de prevenção e promoção da saúde mental, tratamento e reabilitação. E os Caps são importantes dispositivos para efetivação destes cuidados.”

Inaugurado no sábado da semana passada, Caps Liberdade funciona no Hospital Universitário da UFJF e promove atendimento gratuito a quem busca tratar as mais diferentes formas de sofrimento (Foto: Aessandra Gomes Johny Machado/ Assessoria de Comunicação HU/UFJF)

Renata comenta que a inauguração neste momento foi uma feliz coincidência com o mês de setembro, que traz a campanha do Setembro Amarelo para colocar a prevenção do suicídio em pauta, mas reforça que é preciso ter esse cuidado de forma constante. “Precisamos falar disso, precisamos estar atentos aos sinais, precisamos acolher. Nossa mudança promoverá uma ampliação da assistência, garantindo maior acesso e promovendo ações diversificadas de cuidado às diferentes formas de sofrimento, inclusive para minimizarmos os riscos de suicídio, não só neste mês, mas durante todo o ano.”

A coordenadora reforça ainda a importância de um acompanhamento multiprofissional, de forma a tratar a saúde mental como um todo. “É preciso falar desse cuidado com nossa saúde mental e dar a assistência necessária para esse acolhimento e tratamento multiprofissional. São transtornos que trazem real sofrimento ao sujeito, e é preciso ter acesso aos serviços para garantir não só a prevenção ao suicídio, mas a todas as formas de adoecimento mental”, alerta Renata.

Como funciona

Atualmente, o Caps Liberdade recebe 600 usuários em atendimento ambulatorial e realiza 120 tratamentos intensivos. Na pandemia, a frequência diária presencial no Caps diminuiu, mas o suporte ao tratamento continuou, assim como os telemonitoramentos e o agendamento de consultas e atendimentos. O espaço conta com atendimentos individuais nas áreas da psiquiatria, terapia ocupacional, serviço social e enfermagem, oficinas terapêuticas, suporte às famílias e acompanhamento domiciliar caso seja necessário.

Para ter acesso ao atendimento, é necessário entrar em contato com a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência do seu bairro, que dará encaminhamento às necessidade de atendimento e definir com os Caps as orientações e os direcionamentos para cada caso. No total, Juiz de Fora tem cinco Caps, que fazem parte do Departamento de Saúde Mental da Secretaria de Saúde.

Ações marcam Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio

O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, lembrado na última sexta-feira (10), está sendo celebrado com ações realizadas pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF). Nesta segunda-feira (13), o Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do Bairro Grama promove uma roda de conversa, às 14h, com o objetivo de divulgar aos usuários informações quanto à prevenção ao suicídio, o espaço para diálogo e conscientização sobre cuidados em saúde mental. A atividade segue os todos os cuidados de segurança necessários para evitar a propagação da Covid-19, com o distanciamento de dois metros entre os participantes, uso de máscara e álcool em gel disponíveis para as famílias.

Na sexta, uma live no Facebook, com participação da supervisora do Caps I, Elaine Alves Schuchter e o psiquiatra Deivisson Vianna, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, e da gerente do Departamento de Saúde Mental, Rosane Jacques, destacou a importância de falar sobre a saúde mental na adolescência.

Além disso, a Farmácia Central, também no dia 10, promoveu uma ação de educação em saúde em apoio ao Setembro Amarelo, com uma abordagem individual, distribuição de cartilhas, laço amarelo da campanha e disponibilização do ”Mural do Sentimento”, um cantinho reservado para o cidadão expressar -se de forma livre e sem julgamentos.

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