Jairzinho paz e amor tem prazo de validade curto

No dia 7 de setembro, o presidente Jair Bolsonaro chegou ao ponto de combustão pelo que disse à tarde em comício na Avenida Paulista e pelo que aconteceu de madrugada em Brasília com a invasão da Esplanada dos Militares por centenas de seus devotos.

O plano deles, avalizado por Bolsonaro, era ocupar o prédio do Supremo Tribunal Federal e capturar alguns dos seus ministros. O de Bolsonaro, dar uma demonstração de força que, se bem-sucedida, poderia até resultar num golpe. Ora, por que não?

As  Forças Armadas assistiriam à distância sem sujar as mãos. Caminhoneiros paralisariam o país como de fato tentaram. A reação de ministros do Supremo pôs tudo a perder, bem como a ausência nas ruas de policiais militares bolsonaristas armados.

No dia seguinte (8), Bolsonaro reuniu seus ministros e garantiu que as manifestações da véspera provaram que o povo está ao seu lado para o que der e vier. E disse que não mudaria de comportamento para não perder o voto dos seus apoiadores.

Os ministros militares Braga Neto (Defesa), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria do Governo) deram-lhe inteira razão. Os ministros políticos, com jeito, sugeriram que suavizasse as falas.

Só mais tarde, Bolsonaro deu-se conta da catástrofe que provocara e que poderia engoli-lo. A Bolsa de Valores desabou, o preço do dólar disparou e, no Congresso, o fantasma da abertura de um processo de impeachment havia se materializado. Então, o que fez?

Pediu arrego a Michel Temer. Na manhã do dia 9, mandou o avião presidencial buscá-lo em São Paulo para um encontro em seu gabinete. Temer desembarcou em Brasília com uma nota pronta para que ele assinasse. O resto é história conhecida.

Para o recuo de Bolsonaro pesaram também as manifestações de amanhã convocadas por entidades da direita que se lhe opõem, responsáveis em 2016 pelos gigantescos atos públicos que apressaram o fim do governo da presidente Dilma Rousseff (PT).

Em sua live semanal das quintas-feiras, em resposta a críticas de bolsonaristas de raiz decepcionados com seu recuo, o presidente apelou: “Me deem três dias” – para o quê não se sabe. Não significa que “Jairzinho paz e amor” sairá de cena em breve.

Tampouco o impeachment esfriou porque ele entrou em cena. Fernando Collor só caiu depois que o vice, Itamar Franco, beijou a mão das forças políticas que o avalizaram junto às forças econômicas do país. Temer cumpriu o mesmo ritual.

Itamar não pôs no papel o que faria como presidente. Temer pôs, e à presidente Dilma (PT) entregou o documento com o pomposo nome de “Ponte para o Futuro”. Como Dilma o rejeitou, o documento tornou-se público e foi discutido em todos os Estados.

Tais precedentes continuam de pé. As condições para a abertura de um processo de impeachment não estão dadas. O vice-presidente Hamilton Mourão resiste a proceder da mesma maneira dos seus antecessores para não ser apontado como traidor de Bolsonaro.

Não só. Direita e esquerda temem que, uma vez na presidência, Mourão acabe gostando e não queira sair de lá em janeiro de 2023. A Constituição lhe assegura o direito de disputar a reeleição. E se ele quisesse disputá-las? E se tivesse chances de vencer?

Um confidente de Lula jura ter ouvido dele o seguinte comentário: “Prefiro mil vezes enfrentar um ex-capitão a um general, mesmo que da reserva”. É, faz sentido, sim. Como faz todo sentido que tão logo possa o ex-capitão escanteie “Jairzinho paz e amor”.

A escalada autoritária de Bolsonaro está suspensa. Ganha um exemplar do livro de memórias do coronel torturador Brilhante Ulstra quem acertar quando será retomada. Bolsonaro depende do medo que suscite ou do golpe para permanecer no poder.

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