MC apresenta favela como um Coliseu: “Batalha para uns, espetáculo para outros”

Em seu álbum de estreia, “Dai a César o que é de César”, o rapper capixaba César Lemos apresenta a realidade da favela como a de um Coliseu, lugar de batalhas que, para quem está de fora, parecem espetáculos. Mas, nas sete faixas do álbum, o que de fato o MC de 24 anos conta é sua história, entrelaçada a questões políticas e sociais do Brasil.

“A música é vida antes de ser cantada”, disse César MC, como se fizesse um verso de rap, em entrevista à coluna. O rapper, que nasceu no Morro do Quadro, na capital do Espírito Santo, explicou que o álbum recebeu o nome da passagem bíblica porque foi uma desautorização de Jesus Cristo a um projeto de poder. Para ele, a frase também significa a busca pelo seu lugar como jovem preto e favelado no Brasil. 

Em 2017, César foi campeão nacional do Duelo de MCs, onde, onze anos antes, em 2006, Emicida começou sua carreira. Hoje, os dois cantam “Antes que a bala perdida me ache”, a quarta música do álbum. O rapper Djonga também junta sua voz à de César em “Neguin”, que denuncia o racismo e a falta de fé nos jovens negros. 


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O álbum, que foi lançado na última quarta-feira (08/09), já foi tocado no Spotify e no YouTube mais de 1 milhão de vezes. Em entrevista à coluna, o MC falou sobre os desafios e preconceitos no movimento do rap brasileiro, sobre a sua história e analisou questões políticas e sociais do Brasil de Bolsonaro.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista de César MC.

Por que a passagem bíblica “Dai a César O Que é de César” dá nome e inspira o conceito do álbum?

A frase me possibilitou trabalhar a palavra César de diversas formas, tanto de uma maneira individual, eu como jovem preto, periférico, buscando um lugar no mundo, tentando, literalmente, encontrar o que é de César, quanto mostrando a importância da fé no meu trabalho, mas deixando claro que é uma fé desvinculada da forma como é apresentada pelo governo atual. Essa passagem, na Bíblia, significa uma desautorização de Cristo ao uso do nome dele para um projeto de poder. Então essa frase foi escolhida porque transita sobre embate político, sobre religiosidade e sobre um moleque tentando buscar o que é dele. 

Na música “Eu precisava voltar com a folhinha”, você conta que usava nas batalhas de rima o mesmo boné que seu pai vestia para catar garrafas pet. Como sua história influenciou sua música?

As minhas músicas sempre têm um tom autobiográfico, então quando eu falo que eu precisava voltar para a folhinha, eu estou contando sobre um momento da minha história em que eu larguei a faculdade de Matemática para me dedicar totalmente ao rap. Mas foi uma época difícil, que para fazer uma grana extra, meus pais trabalhavam na reciclagem. Eu não podia tratar meu sonho como uma aventura, então a imagem do meu pai com aquele boné, catando garrafas pet, me lembrava da seriedade e urgência do meu sonho. 

Quais são as maiores dificuldades e barreiras que existem para alcançar sucesso no cenário do rap brasileiro?

O rap tem uma proposta de enfrentar muita coisa que as pessoas não querem ouvir, né? O maior desafio é quebrar as barreiras do diálogo, porque, por termos essa característica de enfrentamento, sempre fomos marginalizados. E tem a questão também de, no ativismo, muitas vezes não deixarem a favela ser a protagonista de suas próprias narrativas. Às vezes a mensagem que sai da favela de forma bruta não é aceita na pseudo intelectualidade do ativismo branco. 

Por que representar a favela como um Coliseu?

Dentro do Coliseu as pessoas batalhavam por suas vidas enquanto outras assistiam como um espetáculo. Trazendo esse conceito para a realidade que a gente vive hoje, eu também consigo enxergar dentro da favela as lutas individuais e coletivas pela sobrevivência. E essas lutas foram causadas por uma estrutura política. Então além de ter que lutar muito mais para ter um diploma ou um emprego, por exemplo, também existem as batalhas literais, que são balas entrando na comunidade no meio da madrugada. A realidade não é essa à toa, e só a revisão dessa estrutura política pode transformar isso. 

Na sua visão, qual o papel do rap no Brasil de hoje?

O rap foi construído para não ser indiferente sobre as coisas que acontecem, então a gente não pode deixar de estar ativo nas discussões e ressignificar as lutas e a história. Eu queria muito cantar só sobre temas que me alegram, mas eu não posso ser indiferente com o que está acontecendo no Brasil e como a gente chegou até aqui. 

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