Méliuz salta 14% em setembro após cair 42% em agosto: o que explica essa volatilidade e o que esperar para as ações?

SÃO PAULO – O investidor que tem as ações do Méliuz (CASH3) em carteira se acostumou nas últimas semanas a viver fortes emoções na Bolsa. Só nesta semana o ativo já teve uma alta de 12,8%, outra de 15,1% e uma queda de 9,48% no pregão desta quarta-feira (15), que depois se transformou em poucas horas em uma alta de até 6,23%, fechando com leve alta de 0,39%, a R$ 7,73.

Com isso, a ação sobe 14,01% em setembro depois de uma queda de 42,2% em agosto.

Segundo Matheus Odaguil, analista da XP, essa movimentação atípica vem ocorrendo desde que a companhia reportou seu resultado do segundo trimestre, com um prejuízo de R$ 6,7 milhões e um Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) negativo em R$ 7,2 milhões. No dia, os papéis da companhia despencaram 12,6%.

“O Méliuz é uma empresa disruptiva de tecnologia, que depende muito da execução do seu projeto para performar bem. Suas ações operam a 200 ou 300 vezes o [múltiplo valor de mercado dividido pelo] lucro. Então, quando há uma decepção com o resultado é normal o papel ser mais penalizado”, explica.

Outro ponto que afeta os preços do papel CASH3, de acordo com Odaguil, é o aumento nos juros básicos da economia promovido pelo Banco Central para conter a inflação, uma vez que o aperto monetário tem efeito negativo sobre o consumo e, consequentemente, acaba afetando o negócio de cashback. Isso fora o aumento do custo de capital e da taxa de desconto ao avaliar a rentabilidade da companhia na perpetuidade, o que afeta as companhias de tecnologia.

Por fim, outro ponto negativo é o cenário recente de turbulência política. As últimas semanas foram marcadas por um clima de confronto entre os Três Poderes, algo que impactou a Bolsa como um todo e trouxe preocupações sobre a capacidade do governo de continuar a implementar uma agenda liberal reformista.

Na avaliação de Ricardo Oliboni, chefe de Mesa da Axia Investing, a ação do Méliuz sofreu em agosto com o cenário político e econômico conturbado, porém tem se recuperado nos últimos tempos por fatores internos, como a boa gestão e por motivos externos, como o alívio posterior à carta do presidente Jair Bolsonaro com acenos de paz ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O analista da XP ressalta que o Méliuz continua a ter bons fundamentos, de modo que a cada grande desvalorização os investidores enxergam oportunidade de comprar a ação mais barato. A XP tem recomendação de compra para os papéis CASH3 com preço-alvo de R$ 8,00, o que representa uma valorização de 3,5% sobre o patamar de fechamento das ações hoje.

Fora isso, Fabiano Vaz, analista da Nord Research, diz que o desdobramento das ações do Méliuz na razão de um para seis realizado no dia 9 também tem sua parcela de “culpa” na volatilidade, pois ao reduzir em seis vezes o valor unitário de cada ação levou uma multidão de investidores pessoas físicas, que gostam da história de empresa tech disruptiva, a comprar o papel.

“Desde a abertura de capital essa aura de fintech ajudou bastante o Méliuz. Saiu cara já no IPO e, apesar dos resultados crescentes, só fez aumentar seus múltiplos. A queda de agosto ocorreu porque o investidor se assustou com o resultado e o Ebitda negativos”, avalia.

Além de ter se tornado mais atrativa ao investidor pessoa física depois do desdobramento, o Méliuz ainda ganhou muita liquidez com a entrada no índice Ibovespa, ocorrida no dia 6. Vale lembrar que muitos fundos passivos são obrigados a comprar uma ação quando ela entra no índice, o que acaba gerando uma pressão compradora sobre o papel.

“Em suma, não acredito que a alta recente, a queda do passado ou a volatilidade do papel possam ser atribuídos a um só fator ou notícia. É uma soma de causas”, entende Fabiano Vaz.

O analista da Nord também tem uma visão positiva para a empresa, destacando que a gestão entendeu rápido que o negócio de cashback seria muito arriscado por ter pouca barreira de entrada contra concorrentes, o que levou a companhia a fazer diversas aquisições, como a do banco Acesso, e a criar seu próprio cartão de crédito, tornando-se uma fintech completa, não só uma empresa que dá dinheiro de volta em compras nas lojas de terceiros.

Por outro lado, Fabiano Vaz diz que prefere esperar antes de recomendar compra do papel. “Há custos de aquisição e cultura nessas operações de M&A recentes. Ela precisa demonstrar nos resultados essas sinergias obtidas. Por enquanto acho muito incipiente”, defende.

A visão é compartilhada pelos analistas Fred Mendes e Mirela Oliveira, do Bank of America. Para eles, o futuro da empresa é brilhante, mas há desafios no curto prazo.

“O Méliuz é uma empresa com uma cultura forte e uma gestão sólida, que entrega resultados em todas as frentes desde o seu IPO. A Méliuz tinha mais ou menos 140 funcionários durante seu IPO e hoje, 10 meses depois, tem perto de 300, mesmo sem contar as fusões e aquisições, e acreditamos que pode levar algum tempo para perpetuar sua cultura em todos os canais”, escrevem os analistas do BofA em relatório.

Na opinião deles, o Méliuz está cada vez mais focada em se tornar fintech e está com a estratégia correta diante do alto potencial do mercado, mas poderia demorar um pouco para ver os frutos desse investimento.

O BofA tem recomendação neutra e preço-alvo de R$ 9,00 por ação, o que corresponde a um upside de 16,43%.

No meio da volatilidade, o Itaú BBA tirou Meliuz do seu portfolio. A justificativa da equipe de análise do banco é que apesar de concordarem com o movimento estratégico de lançar um novo app para melhorar a experiência do consumidor junto com um cartão de crédito próprio, os lucros de curto prazo devem ter pouca tração.

“Não há incentivo para oferecer novos cartões de crédito agora, pois estariam compartilhando ganhos com seus parceiros. Méliuz ganhou 53,9% desde a entrada no portfólio, enquanto o IBOV caiu 1,2%”, apontam os analistas.

Segundo dados da Refinitiv, as ações do Méliuz acumulam quatro recomendações de compra e duas neutras entre bancos, corretoras e casas de análise, com preço-alvo médio de R$ 10,50 para as ações CASH3. Isso representa uma valorização de 35,83% sobre o patamar de fechamento dos papéis nesta quarta.

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