Menina utiliza canudos para criar réplicas de estrutura que usa para sustentação do corpo antes de cirurgia, em Curitiba


Lucyane Lima, de 11 anos, viajou com a mãe e a irmã de Fortaleza ao Paraná para fazer tratamento da coluna; ela conta que miniaturas ajudaram a reduzir a dor e a saudade de casa. Paciente de 11 anos cria, com canudos, miniatura de estrutura que usa em hospital
Com criatividade, talento e os materiais que tinha disponíveis, Lucyane Ribeiro Lima, de 11 anos, decidiu representar nas brincadeiras com as bonecas a rotina no hospital onde faz tratamento, em Curitiba.
Às vésperas de realizar uma cirurgia para tratar um problema na coluna, Lucyane usou canudos de plástico, fornecidos pelo Hospital Pequeno Príncipe nas refeições dos pacientes, para criar réplicas de uma cadeira com halo craniano – estrutura que ela usa para sustentar o corpo antes da cirurgia.
A ideia veio de uma médica, que percebeu que a menina gostava e tinha criatividade para trabalhos manuais e artísticos, e sugeriu que ela usasse os materiais recicláveis para desenvolver uma peça para as bonecas.
“Me ajudou a me distrair, a não sentir mais dor, e me ajudou a não ficar lembrando o tempo todo de casa, dos meus animais”, disse a menina.
A paciente conta que aceitou o desafio e se inspirou em uma amiga que fez no hospital, chamada Jenifer, que também usava halo e que é muito parecida com uma das bonecas que Lucyane tem.
Lucyane Lima, de 11 anos, usa canudos de plástico para fazer réplicas da estrutura que usa no hospital
Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
Foram necessários um tempo de estudo e algumas tentativas até a descoberta sobre como montar os canudos para que formem a réplica. O assento da cadeira é feito com E.V.A.
O trabalho de criatividade deu tão certo que a menina passou a fazer mais peças para ajudar outras crianças a brincarem e a se sentirem representadas.
A paciente diz que poder brincar com as bonecas usando uma estrutura que ela também usa ajudou a entender melhor e aceitar o tratamento.
“Eu fiquei feliz quando fiz a miniatura, bastante, até porque, eu nunca imaginei colocar um halo. Eu já vi pessoas usando coletes e tal, mas esse (halo) eu nunca vi. Também nunca imaginei como seria a cirurgia. Fiquei tão nervosa, que antes eu não queria nem falar no assunto”, afirmou.
Réplicas criadas por Lucyane Lima são feitas na medida para os bonecos
Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
Tratamento
Helen Luci Ribeiro Mendes Lima, mãe da paciente, conta que a família é de Fortaleza, no Ceará, onde o marido ficou por causa do trabalho.
Ela e uma outra filha, de 20 anos, deixaram a cidade temporariamente para acompanhar Lucyane (que a mãe chama carinhosamente de Anny) no tratamento em Curitiba.
“Mesmo com medo eu enfrentei e vim. Pedi a Deus para me dar coragem e que, se fosse pelo bem da Anny, iria conseguir. Estamos bem, a Anny está feliz porque está fazendo o tratamento. Ela quer ter uma vida normal, me pergunta: ‘mamãe, eu vou poder andar, correr, brincar?’ e eu digo ‘claro que vai”, comentou.
O pulmão da filha, segundo ela, estava muito comprometido antes do tratamento, e a cirurgia da coluna deve dar mais conforto para a menina.
A operação está marcada para ocorrer neste sábado (11). No hospital, Lucyane recebe o acompanhamento médico e mantém a rotina de aulas há meses.
Miniaturas de estrutura usada pela paciente são feitas com canudos e E.V.A.
Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
A mãe conta que os primeiros sintomas foram constatados por volta dos cinco anos de idade. A menina, segundo ela, ficava com a cabeça um pouco inclinada, segurando-a com a mão.
Após exames, um médico informou que ela enfrentava problemas vertebrais e que precisaria de tratamento mais intenso. Helen pesquisou na internet sobre o caso até que recebeu indicação para procurar o atendimento no hospital em Curitiba.
“Sempre fui uma mãe muito cuidadosa. Tinha medo de ela correr, passar mal, dizia para ela ‘não corra, pode esbarrar, machucar’. Então, ela foi crescendo uma criança com restrição de brincadeiras. Graças a Deus, descobri o hospital, aí pesquisei bastante para descobrir na internet sobre o halo craniano que ela iria usar”, disse.
O ortopedista Luis Eduardo Munhoz da Rocha é o médico que acompanha o tratamento de Lucyane. Segundo ele, o caso da menina trata-se de uma cifoescoliose congênita, que precisa de cirurgia.
“Ela tem vértebras faltando de um lado, são três vértebras faltando, e tem uma barra óssea, uma vértebra que não se formou inteira, não descolou da outra. Então, se eu tenho uma barra do outro lado, ela vai provocar uma deformidade muito mais grave no decorrer do crescimento”, comentou o especialista.
De acordo com o médico, que vai conduzir o operatório da menina, o uso do halo com tração promove melhora na nutrição, ajuda no ganho de peso, melhora a função do pulmão e do coração.
O equipamento, segundo o especialista, ajuda a aumentar o índice de massa corporal (IMC) da paciente, para que ela ganhe peso e tenha mais segurança na cirurgia.
“Quando a gente coloca ela em tração, a cifose melhora muito, gera um espaço na cavidade abdominal para ela poder ingerir. Senão a paciente come um pouquinho e está satisfeita, então não ganha peso. É uma cirurgia grande e que após a cirurgia, ela gasta muita energia no pós operatório. Se ela tem um IMC que passa de 15, passa a ser algo mais seguro”, disse.
O médico comentou ainda que a média do ganho de ganho de peso de uma criança, a partir do momento em que utiliza o halo com a tração é de cerca de 600 gramas a 1 quilo por semana.
Lucyane, de 11 anos, começou a fazer réplicas da estrutura com halo para outras crianças
Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
Saudade de casa
A ansiedade pela cirurgia tem sido administrada com a esperança da recuperação e da volta para a cidade onde moram. “A Anny vai se recuperar rápido para a gente voltar para casa. Ela está super ansiosa”, destacou Helen.
Lucyane também espera com ansiedade a etapa final do tratamento. O ortopedista informou que a recuperação após a cirurgia deve levar em torno de 15 dias.
Lucyane, de 11 anos, conta a companhia da mãe durante o tratamento, no Hospital Pequeno Príncipe
Divulgação/Hospital Pequeno Príncipe
Além das boas lembranças pelas amizades que fez e pelo cuidado que recebeu durante os meses no hospital, a paciente já tem encomendas de cadeiras com halo para fazer. Outras crianças também querem réplicas feitas por ela.
“Eu estou um pouco ansiosa porque eu quero muito ver como está a minha casa, minhas galinhas, meus pássaros. Gosto de fazer as miniaturas e vou fazer para quem quer. Vou ter bastante trabalho lá”, comentou a menina.
Lucyane também ama desenhar e pintar. Até o momento tão esperado de poder voltar para casa, segundo a mãe, a menina exercita o talento com pinturas em tela e a montagem das réplicas em miniatura.
Após a indicação de uma outra amiga que fez no hospital, a menina também desenvolveu uma cama com halo, igualmente feita com canudos. Segundo ela, o objetivo é criar outras peças e montar um hospital para as bonecas.
Paciente desenvolveu uma réplica de uma cama com halo cefálico, para bonecas, usando canudos
Helen Ribeiro Lima/arquivo pessoal
Além de criar miniaturas, Lucyane conta que se dedica ao desenho e pintura
Helen Ribeiro Lima/arquivo pessoal
Lucyane, de 11 anos, conta que fazer miniaturas no hospital ajudou a reduzir a dor e a saudade de casa
Helen Ribeiro Lima/arquivo pessoal
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