Mourão tem “agenda paralela” com políticos da oposição, empresários e diplomatas

“Escanteado” por Bolsonaro, vice-presidente dialogo com adversários do governo em busca de um futuro político, mas encontros não tocam na palavra “impeachment”

Vice-presidente Hamilton Mourão intensificou agenda de encontros desde julho | Foto: Marcos Correa/PR

O mandato do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) está sob tensão desde o início – em grande parte, por conta dele mesmo –, mas nunca esteve em um viés de baixa e com seu comandante mais isolado do que atualmente.

O fato ocorre ao mesmo tempo em que o general Hamilton Mourão (PRTB) intensifica uma espécie de “agenda paralela” de encontros com adversários do governo na Câmara e no Senado e consolida relações com magistrados, diplomatas e empresários. É o que diz reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, publicada neste sábado, 11.

Mourão passou a receber em audiências e turnês de viagens especialmente lideranças de partidos de centro. Uma boa parte desses eventos não foi registrada na agenda oficial. Em Brasília, os encontros de Mourão ocorrem no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, e no gabinete de trabalho no prédio anexo do Palácio do Planalto.

O general da reserva recebeu nomes de PP, PSDB e MDB e atrai o interesse de cafés e conversas com representantes do PSD e do DEM.

É no espaço independente de interlocução montado na estrutura da Vice-Presidência que Mourão faz pontes com a política e o mercado e se mantém no jogo na reta final do governo, observam interlocutores. A decisão do general de não ser anulado no cargo, ressaltam, foi tomada no final de julho, quando Bolsonaro disse em entrevista a uma rádio de João Pessoa que vice é como cunhado, você “casa e tem que aturar”. O presidente afirmou ainda que escolheu o militar da reserva para a chapa às pressas.

Em meados de agosto, por exemplo, o vice recebeu em seu gabinete o ex-ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer Carlos Marun. O político sul-mato-grossense incentivou o general “a atuar politicamente de forma mais efetiva”, em suas próprias palavras, inclusive buscando um partido mais robusto que o PRTB. “O tema ‘impeachment’ não entrou de forma nenhuma na conversa. Não houve da minha parte, nem da parte dele, nenhuma sinalização ou troca de ideias sobre isso. Eu conversei a respeito da participação dele, o que ele está pensando, no processo político partidário-eleitoral”, disse Marun ao Estadão. O encontro não estava na agenda oficial do vice.

Pouco depois da reunião com Marun, em 31 de agosto, Mourão recebeu o deputado federal Raul Henry (MDB-PE). O pernambucano apresentara o parecer contrário à proposta de emenda à Constituição (PEC) do voto impresso, ajudando a enterrar a ideia. Henry contou que incentivou Mourão a continuar na vida política.

Outra reunião importante de Mourão feita por fora da agenda oficial foi com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luís Roberto Barroso. Em 10 de agosto, Mourão atendeu a um convite do ministro para conversar sobre os riscos de uma ruptura institucional no País por parte das Forças Armadas. O encontro foi revelado pelo Estadão dias depois e irritou Bolsonaro — no dia em que o caso veio à tona, o presidente anunciou que pediria o impeachment de Barroso e do colega de STF Alexandre de Moraes ao Senado. No fim das contas, só o pedido contra Moraes foi apresentado, e rejeitado em seguida.

No dia 1º de setembro, Mourão se encontrou com o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB). “Diferentemente dos posicionamentos do atual presidente (da República), o vice-presidente Mourão sabe muito bem o significado de manter a sociedade civil à frente das decisões tomadas”, Assim como Marun, Veneziano frisou que o tema ‘impeachment’ não foi discutido. Mourão ainda se encontrou com o presidente da legenda, Baleia Rossi (SP) no Jaburu.

Um outro encontro de Mourão com parte da elite econômica do País ocorreu em 26 de agosto, também em São Paulo. O vice-presidente foi ao hotel Grand Hyatt, no Itaim Bibi, para uma palestra ao Parlatório — um grupo de empresários que vem promovendo reuniões com eventuais presidenciáveis nos últimos meses. Na plateia estavam os dirigentes de um punhado de empresas de capital aberto, como Leonel Andrade (CVC); Clarissa Sadock (AES Brasil) e Luiz Fernando Furlan, membro do conselho de administração da multinacional BRF e ex-ministro de Lula; entre outros.

No dia 7 de Setembro, Mourão subiu no palanque da Esplanada ao lado de Bolsonaro. Mas, no dia seguinte, enquanto o presidente reunia seus ministros no Planalto, o vice embarcou para o Pará com uma comitiva de embaixadores estrangeiros — o objetivo era melhorar a percepção dos representantes sobre os esforços brasileiros pela preservação da floresta. O grupo foi recebido pelo governador Helder Barbalho (MDB) e visitou instalações de empresas como a Vale.

Há alguns meses, Mourão disse estar cogitando uma candidatura para o Senado pelo Rio Grande do Sul. Mais recentemente, houve especulações sobre uma possível candidatura ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O prazo para mudar o domicílio eleitoral, hoje em Brasília, termina em abril.

Apesar dos elogios dos emedebistas, Mourão não é unanimidade no Congresso. Para o vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marcelo Ramos (PL-AM), a figura do vice é “uma incógnita” para a maioria dos parlamentares.

* Com informações do jornal O Estado de S. Paulo

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