Padre Rohr ‘escarafunchou’ sambaquis do Litoral ao Extremo-Oeste de SC

Santa Catarina é terra de sumidades em diferentes campos, do esporte à indústria, passando pela botânica, entomologia, esporte, música e pintura. Pois a arqueologia, uma ciência pouco citada na maioria das rodas de conversa, também revelou ao mundo um iluminado que palmilhou este território e deixou rastros dignos de registro.

Os sambaquis eram considerados meros amontoados de conchas e ossos sem utilidade - Divulgação/ND
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Os sambaquis eram considerados meros amontoados de conchas e ossos sem utilidade – Divulgação/ND

Existe o projeto de construir uma nova sede para o Museu do Homem do Sambaqui  - Divulgação/ND
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Existe o projeto de construir uma nova sede para o Museu do Homem do Sambaqui – Divulgação/ND

A partir de janeiro de 2022, visitas pré-agendadas contemplarão escolas e interessados - Divulgação/ND
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A partir de janeiro de 2022, visitas pré-agendadas contemplarão escolas e interessados – Divulgação/ND

Uma pequena parte do acervo está sob a guarda da UnB - Divulgação/ND
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Uma pequena parte do acervo está sob a guarda da UnB – Divulgação/ND

Além das três organizadoras, o livro sobre o Pe. Rohrtraz contribuições de especialistas  - Divulgação/ND
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Além das três organizadoras, o livro sobre o Pe. Rohrtraz contribuições de especialistas – Divulgação/ND

Está em curso o resgate de um ícone da área – o padre João Alfredo Rohr (1908-1984), arqueólogo que é referência no Estado e no país, precursor que deixou um grande legado, uma metodologia inovadora e admiradores dentro e fora do Brasil.

O livro “A trajetória arqueológica de Pe. João Alfredo Rohr em Santa Catarina”, lançado este ano pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), traz uma série de artigos que esmiúçam a trajetória desse pesquisador e escavador que ajudou a salvar muitos sítios arqueológicos ameaçados pela extração e desaparecimento definitivo em todo o Estado.

Dezenas de milhares das peças que ele coletou, entre 1958 e 1984, estão no Museu do Homem do Sambaqui, no Colégio Catarinense, em Florianópolis. O livro do Iphan é uma ferramenta para tornar o nome do arqueólogo mais conhecido em todas as latitudes.

A partir do anos de 1950, o Pe. Rohr escarafunchou dezenas de sambaquis, do litoral ao Extremo-oeste, na busca de vestígios de antigos grupos humanos que ocuparam o atual território catarinense.

Durante duas décadas e meia, ele levantou e sistematizou informações sobre mais de 400 sítios em Florianópolis, Laguna, Imbituba, Imaruí, Jaguaruna, São Francisco do Sul, Araquari, Joinville, Garuva e outros municípios.

Foram vistorias, escavações arqueológicas, coletas de materiais e denúncias que resultaram mudanças na lei e na forma de encarar os despojos de tribos que habitaram essas regiões no passado.

Instalado num Estado que é o paraíso dos arqueólogos, o Museu do Homem do Sambaqui reúne fragmentos de ossos e dentes, esqueletos, pontas de flechas, colares, peças de cerâmica, utilitários indígenas, artefatos para uso da agricultura, materiais líticos, vestes, rochas, coleções de numismática, animais empalhados e objetos litúrgicos.

O livro que vai dar maior visibilidade ao nome do Pe. Rohr foi organizado pela arquiteta Liliane Janine Nizzola, superintendente do Iphan/SC,e pelas arqueólogas Margareth de Lourdes Souza e Roberta Porto Marques. O conteúdo da obra, disponível aqui, foi debatido em live realizada no dia 30 de agosto, dentro das comemorações da Semana do Patrimônio Cultural.

“Precisamos de mais ações de educação patrimonial e políticas públicas na área da arqueologia”, diz Liliane ao defender mais atenção a acervos como este. E há razões para tanto – Santa Catarina é o Estado com o maior número de sambaquis e sítios arqueológicos do país.

Desinformação ajudou a destruir os sambaquis

O padre João Alfredo Rohr nasceu em Arroio do Meio (RS), mas desenvolveu toda a carreira no magistério e na pesquisa arqueológica em Santa Catarina. Em 1948, foi diretor do Colégio Catarinense, período em que adquiriu as primeiras peças de uma coleção que se tornaria referência no país.

Quando começou a visitar sítios de origem pré-histórica, percebeu que muitos deles eram também locais de sepultamento, então ameaçados por famílias que construíam suas casas sem saber que ali estava um sambaqui e por empresas mineradoras que transformavam o material em cal, adubo e suporte para a pavimentação de estradas.

Em Florianópolis, o primeiro lugar que escavou foi na Caiacanga-Mirim, no Sul da Ilha de Santa Catarina, em área que hoje pertence à Base Aérea. Em Jaguaruna (sítio de Garopaba do Sul) está aquele que é considerado o maior sambaqui do mundo, que já teve algumas dezenas de metros de altura.

Quando ali chegou, o arqueólogo ouviu relatos de moradores e foi duro nas críticas ao uso indiscriminado de um material tão rico para as pesquisas como insumo para caieiras de vários tamanhos.

As regras mudaram com a lei nº 3.924/61, que regulamentou a atividade de extração. Em 1964,foi criado o Museu do Homem do Sambaqui, em Florianópolis.

Muito das dificuldades que o arqueólogo encontrou ficava por conta da falta de conhecimento sobre o assunto. “Não era má intenção, pois as pessoas não sabiam o valor daqueles sítios”, ressalta a superintendente do Iphan/SC, Liliane Nizzola.

Lei reduz abusos, mas controle é insuficiente

Autor de mais de 90 publicações sobre o tema, o padre João Alfredo Rohr deixou um acervo que teve o tombamento assegurado em 1984, no governo de Esperidião Amin (que foi seu aluno no Colégio Catarinense), reforçado por tombamento federal, pelo Iphan, em 1986.

Existe o projeto, apoiado pelo senador catarinense, de construir uma nova sede para o Museu do Homem do Sambaqui que siga as normas museológicas ideais e desobrigue o colégio, cujo foco é o ensino, de organizar e manter as coleções por conta própria.

Atualmente, vem sendo feita a identificação e sistematização do material por uma museóloga contratada pelo Colégio Catarinense, trabalho que deve ser concluído ainda este ano. A partir de janeiro de 2022, visitas pré-agendadas contemplarão escolas e interessados, que terão acesso à exposição de uma parcela do acervo, separada da reserva técnica.

Uma pequena parte do acervo está sob a guarda da UnB (Universidade de Brasília), doada que pelo próprio Pe. Rohr como maneira de informar autoridades e funcionários federais sobre a importância dos sambaquis.

Assim, pensava ele, haveria mais chances de defesa desses sítios quando eles fossem ameaçados. Além disso, ele queria divulgar o patrimônio arqueológico catarinense.

Agora, o livro chegará às escolas, universidades, bibliotecas e instituições públicas, ajudando a difundir tanto a figura do arqueólogo quanto o vasto material por ele coletado e salvo do esquecimento.

De acordo com a arquiteta Liliane Nizzola, tão importante quanto a guarda adequada desse material é reverenciar o legado do padre Rohr na questão da preservação dos sítios. “A atuação dele fez com que muita coisa não fosse perdida”, diz ela.

Os sambaquis eram considerados meros amontoados de conchas e ossos sem utilidade, mas houve tempo para convencer muita gente sobre a importância de sua preservação.

Hoje, uma das funções do Iphan é licenciar obras, incluindo empreendimentos imobiliários que podem ameaçar esse patrimônio. “As mineradoras e construtoras sabem que destruir sambaquis é crime, por isso assumem o compromisso formal de garantir a preservação caso algo seja encontrado”, afirma Liliane.

Já as obras menores, de famílias que constroem sobre sambaquis, são difíceis de controlar. O Iphan/SC tem apenas três arqueólogos em seu quadro, e recebe pelo menos 100 processos por mês para licenciar. A par disso, tem que apurar denúncias que chegam do Estado inteiro.

Um homem que conciliou fé e ciência

Na introdução de “A trajetória arqueológica de Pe. João Alfredo Rohr em Santa Catarina”, a arquiteta Liliane Janine Nizzoladestaca os principais itens de cada um dos sete artigos do livro, chamando a atenção, por exemplo, para a destruição de sambaquis importantes no Sul do Estado, como os da Carniça, Cabeçuda I, Perrixil (todos em Laguna), Garopaba do Sul e Jabuticabeira II (ambos em Jaguaruna).

O Garopaba do Sul, um dos mais ameaçados, é considerado o maior sambaqui do mundo. Ele tem atraído pesquisadores de outros países e, ao mesmo tempo, vem sofrendo com o descaso do poder público para frear as construções na área do sítio.

Um dos artigos se detém sobre o aprimoramento metodológico das pesquisas de João Alfredo Rohr, fruto dos cursos de que participou, como aluno da célebre professora russo-francesa Annette Laming-Emperaire (1917-1977) e de outros mestres da arqueologia.

Na pesquisa sobre os sítios guaranis, o Pe. Rohr fez escavações no bairro da Tapera, em Florianópolis, entre 1962 e 1967, e foi até Itapiranga, na fronteira com a Argentina, onde a agricultura e a extração de argila já haviam destruído a maior parte do legado de antigos povos da região.

Um aspecto importante destacado pela superintendente do Iphan/SC é o fato de o arqueólogo ter conciliado a sua fé de sacerdote com os preceitos da ciência.

Além das três organizadoras, o livro sobre o Pe. Rohr traz contribuições de especialistas como Geovan Martins Guimarães, Bruna Cataneo Zamparetti, Deise Scunderlick Eloy de Farias, Andreas Kneip, Mercedes Okumura e Andréa Fernandes Considera.

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