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Crônicas de um País incompreendido (e injustiçado) pelo mundo

Bandeira de IsraelReprodução: Flickr

Meu primeiro dia na nova realidade tornou-se particularmente sôfrego no final da tarde ao passar na frente de um alfarrábio nos subúrbios de Tel Aviv. O dono sentado na porta não me enxergou, mesmo estando parado na sua frente, a apenas alguns metros.

Sempre achei que minha presença foi premida por uma espécie de invisibilidade. Quem tem ideia do que falo sabe que ela costuma acometer as pessoas em surtos involuntários.

O interior da livraria, impenetrável. Por mais que eu tentasse o acesso apresentava barricadas com caixas empilhadas. O Senhor A. mostrava-se evidentemente incomodado com alguém bisbilhotando seu labirinto. Ao tentar uma comunicação mais direta ele me indicou que precisava recolher os livros dispostos do lado de fora. Apontou para o mostrador do relógio que indicava 13 horas. Ele realmente estava muito compenetrado no resgate dos tomos e o sol de inverno alcançando timidamente suas canelas finíssimas. Então, sentou-se na entrada com um cachimbo em S. Enquanto ele acendia a chama numa aspiração forçada ele olhava fixamente para fora. Eu tentei acompanhá-lo, porém era uma atenção sem nenhuma perspectiva. Foi a deixa para que ele exercesse alguma especulação. Estaria ele organizando a caótica coleção de livros de Umberto Eco? A grande biblioteca que Jorge Luiz Borges identificou com o Paraiso? O Paraíso, que afinal, deve ser a última realização metafísica das nossas idiossincrasias.

Eram apenas projeções.

Ou, pelo menos era a alternativa que criei, pensando em como ele usaria aquela profusão de palavras acumuladas em suas estantes – pelas dimensões calculo pelo menos uns 15 a 20 mil volumes – para um fim diferente do que a realidade que ele previu. Sua livraria — algo como o “Recanto das palavras incongruentes” em tradução livre do hebraico — encontra-se no mesmo lugar há 50 anos.

Numa ginástica fracassada ainda prosseguia buscava por títulos que me interessassem e tentava me esquivar de uma iminente avalanche de lombadas a cada livro retirado da estante. Ele? Depois de recolher os volumes do banho de sol, permaneceu imóvel, sentado com um cachimbo na boca enquanto olhava para fora por pelo menos 30 ou 40 minutos. Foi quando me dei conta de como o excesso de interpretação é puro desvio da realidade empírica. Até cogitei perguntar qual era sua opinião sobre a situação do País. Discussão antes comum, hoje tabu nacional. Nem quis me identificar como brasileiro, poderia ser tomado como aliado da persona non grata.

Destarte, ele apenas estava interessado em observar a direção aleatória da fumaça produzida pelo tabaco dinamarquês inicialmente neutro e adocicado para depois de inalado mudar o estado de consciência dos alvéolos. Já desconfiava que estava diante de mais um adepto radical da teoria da improbabilidade.

Foi nesse momento que ele me enxergou pela primeira vez e me olhou nos olhos para apontar com a cabeça em direção ao adesivo na porta de vidro do seu estabelecimento.

Eu me virei lentamente: no lugar da conhecida frase simbólica AM ISRAEL CHAI, (O Povo de Israel Vive) o adesivo estampava AM ISRAEL CRY (O Povo de Israel Chora).

Na sublimação aguda e violenta passei do luto crônico à melancolia instantânea.

Ao recuperar a respiração ele já me esperava com a mão estendida me oferecendo uma versão bilingue do “Consolação às tribos de Israel” de Salomão Usque. Cambaleante, quis pagá-lo e ele me dissuadiu, virando as costas e entrando novamente em sua Creta.

Para não contaminar a família deixei para chorar a noite sozinho no quarto, como faço neste exato momento.

O consolo precisa contar com a anuência do consolado. Por enquanto, decidi não permitir: escolho acolher meu sofrimento à imperturbabilidade artificial.

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