Parem de atirar pedra no Supremo. Por Moisés Mendes

Ministro Luiz Fux, presidente do Supremo Tribunal Federal
Ministro Luiz Fux, presidente do STF, durante sessão plenária por videoconferência
Imagem: Nelson Jr./SCO/STF

Publicado originalmente no Blog do autor:

Por Moisés Mendes

Parte relevante das esquerdas brasileiras gostaria de terceirizar os esforços para a reconquista de democracia. Livrar-se de Bolsonaro, segundo essa esquerda mais lerda, é coisa para as instituições.

É dessa esquerda o ataque mais depreciativo ao pronunciamento de Luiz Fux ontem, em resposta a Bolsonaro, porque o ministro deveria ter sido mais contundente. Não são poucas as análises nessa linha de que Fux ficou pela metade do caminho.

O ministro respondeu às ameaças e aos ataques de Bolsonaro, disse que o sujeito cometerá crime de responsabilidade se desprezar ordens da Justiça, chamou Bolsonaro de pregador de messianismos, assegurou que ninguém ameaça ou fecha o STF e mandou o homem trabalhar para resolver os problemas do país.

Mas tem gente dizendo que Fux deveria ter ido mais adiante. Mais adiante como e para onde? Uma das sugestões, dadas em tom categórico, é a de que o STF deveria encarar Bolsonaro pelo crime de ameaçar o não cumprimento de decisões do ministro Alexandre de Moraes.

A esquerda que terceiriza quase tudo acha que Bolsonaro deveria ser enquadrado já pelo crime de responsabilidade como ameaçador.

Além do inquérito que já tramita no Supremo sobre fake news e atos pró-golpe, teríamos mais esse? Não. O Congresso, e não o STF, é quem delibera sobre crime de responsabilidade. A esquerda queria que Fux atravessasse a praça e fosse prender Bolsonaro?

A direita vai para as ruas com uma força que a esquerda não tem mais desde os anos 80. As esquerdas mal conseguem mobilizar seu povo para caminhadas de mês em mês. A última grande caminhada foi no dia 24 de julho.

A próxima ninguém sabe quando será, alguns defendem que seja de braços com o MBL.

E o que essa esquerda espera, enquanto caminha de forma intermitente? Que as instituições cumpram integralmente suas funções num ambiente conturbado, mas sob o controle da extrema direita.

As instituições não estão dissociadas dos humores, das reações e das manifestações de indignação consequentes da sociedade. Não só as indignações virtuais.

Não há como cobrar das instituições o que a população não expressa. É o sentimento da população que dá suporte às instituições em momentos graves.

Por que as instituições enfrentariam Bolsonaro com mais radicalidade, se a população está resignada diante do terror disseminado pelo bolsonarismo que conspira contra a ciência, as vacinas, a economia e o emprego e aprofunda todas as misérias?

Alexandre de Moraes é hoje a mais valente autoridade da República. Enfrenta Bolsonaro, os filhos de Bolsonaro e os milicianos que protegem e têm a proteção dos Bolsonaros para produzir fake news e organizar atos pró-golpe.

Mas tem gente que ainda acha que Alexandre de Moraes é um tucano a serviço da candidatura de João Doria. Que trabalha para uma facção criminosa (é a bobagem mais repetida). E até que faz seu show para se habilitar a ser o candidato da terceira via.

Ora, Moraes será o presidente do TSE a partir de agosto e estará com ele o comando do processo eleitoral. Como e quando o ministro poderia virar candidato? É outra bobagem.

Essa esquerda das conspirações tem que prestar atenção no que disse ontem o ex-deputado José Genoíno em entrevista à TV 247.
Genoíno afirmou que manifestos e discursos, como o pronunciamento de Fux, são importantes.

Mas do que precisamos mesmo é de povo na rua, disse o líder petista que sabe tudo de política e que por isso mesmo sabe que, sem povo na rua, não há instituição que salve a democracia sozinha em situações de exceção.

As instituições funcionam bem, sem sobressaltos, em situações de normalidade. A situação brasileira não é normal desde agosto de 2016, quando Dilma Rousseff foi golpeada.

Leia também:

1 – Com ameaças de Bolsonaro, STF ganha proteção da tropa de elite da PF

2 – Em resposta a Bolsonaro, Fux cita crime de responsabilidade e avisa que “ninguém fechará esta Corte”

Não há como exigir mais do Supremo, se os brasileiros são vacilantes na resistência ao fascismo

Alguns insistem que o STF foi conivente com a Lava-Jato. Mas não dizem que o mesmo STF foi que apontou e revisou os erros do lavajatismo. Que Lula só se tornou elegível por decisão corajosa da maioria do Supremo.

O STF da Lava-Jato parece não existir mais. Mas as esquerdas querem continuar cobrando a mesma conta indefinidamente.

Vamos prestar atenção nos movimentos do STF em relação a Bolsonaro e ao avanço do fascismo, para que o desejo permanente de revanche com o Judiciário não nos condene às armadilhas políticas do ressentimento ingênuo.

O Supremo é hoje a maior trincheira contra Bolsonaro. Não são os partidos. Nem os sindicatos, a Igreja, as organizações civis e muito menos as entidades estudantis, que não agem politicamente e com vigor no Brasil há muito tempo.

Parem de atirar pedra no Supremo cercado pelos caminhoneiros empregados dos poderosos grupos do agropop, porque é tudo que Bolsonaro deseja.

Esse é o jogo que serve à extrema direita. Fragilizar o Judiciário, porque a maioria do Congresso foi comprada e a população está em casa vendo Netflix e criticando o Supremo.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.

Os comentários estão desativados.