Pobres cidades ricas (por Felipe Sampaio)

Cidades são ecossistemas complexos, repletos de diversidade, seja nos aspectos geográficos, seja nos aspectos humanos. Por isso, uma gestão urbana eficiente exige, bom diagnóstico, planejamento participativo, indicadores adequados e abordagem integrada, sempre com foco na eliminação da desigualdade.

Uma boa medida do nível de bem-estar geral dos habitantes de uma cidade é o seu Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, adotado pela ONU para agregar parte dessa diversidade ao estudo do seu desenvolvimento, incorporando à aferição da renda outros indicadores relativos à educação e à longevidade da população.

O IDH é constituído de três componentes: Longevidade, Educação e Renda. O uso do IDH adiciona precisão às avaliações de crescimento econômico baseadas no PIB e outros, melhorando a leitura do nível de qualidade de vida geral.

Contudo, é importante cruzar a interpretação do IDH com outras medições da realidade social e econômica, por exemplo, montando mapas de desigualdade e de insegurança da cidade.

Quando trabalhei, no ano de 2014, como assessor parlamentar na Câmara de Vereadores da Cidade do Recife, chamou-me a atenção um fenômeno curioso que ilustra como podemos incorrer em uma miopia estatística ao analisarmos indicadores urbanos.

O IDH do Recife até então havia crescido durante os vinte anos anteriores, atingindo o status de IDH Alto com valor 0,772. Apesar disso, a cidade permanecia na 210ª posição, no ranking de IDH municipal no Brasil.

Ocorre que o IDH de uma cidade é a média dos IDHs de seus bairros. A má posição nacional do Recife, sugeria a existência de bolsões de “subdesenvolvimento” encobertos pelo próprio método de cálculo das médias que compunham o IDH da cidade como um todo.

A renda per capita no Recife também aumentara durante aqueles 20 anos e o PIB da cidade havia dobrado. Porém, ao cruzarmos os números do IDH com informações do Índice de Gini (que mede o grau de desigualdade de uma localidade), percebia-se que o Recife permanecia como a mais desigual entre as maiores cidades do País. Perdia para Salvador, Fortaleza, Florianópolis, Porto Alegre, Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo, Rio e outras.

Ao abrirmos o IDH dos bairros do Recife encontrou-se áreas de classes média e alta com Índice de Desenvolvimento Humano equivalente ao de países desenvolvidos. Mas também, havia bairros com IDH classificado como médio que tinham componentes de renda e de educação baixos. Ou seja, bairros que apareciam como desenvolvidos e a rigor continham comunidades subdesenvolvidas.

Mais surpreendente ainda era a ocorrência até mesmo de bairros com IDH Alto (equivalente a países ricos) dentro dos quais havia áreas com renda e educação baixos (equiparáveis a países pobres).

Seguindo com o exemplo recifense, naquela mesma época o Relatório Cidades Empreendedoras 2014, produzido pela Endeavor Brasil, trazia o Recife na 12ª posição, entre 14 capitais. A pesquisa revelava uma cidade estagnada em itens como burocracia, impostos, infraestrutura, acesso à internet, mão de obra qualificada, energia elétrica, preço do metro quadrado e mobilidade urbana.

Esse quadro era o mesmo na maioria das cidades brasileiras em 2014, e a situação não mudou até este ano de 2021. O Brasil prossegue com o IDH nacional em crescimento, apesar de perder posições para outras nações. No entanto, permanece entre os dez países mais desiguais e inseguros do mundo.

Ao desdobrarmos os indicadores até o nível das cidades e de seus bairros, podemos constatar que a situação piorou em grande parte dos municípios brasileiros.

Dito de outra forma, mesmo nas cidades mais ricas do País, ainda é possível encontrar bairros com qualidade de vida equivalente à Bélgica convivendo com comunidades que se parecem com o Haiti.

Felipe Sampaio é co-fundador e colaborador do Centro Soberania e Clima (CSC); https://capitalpolitico.com/

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