Por que as abelhas estão invadindo cidades de Goiás

Goiânia – Goiás registrou, em menos de uma semana, ocorrências inusitadas relacionadas com abelhas. Em duas delas, em Caldas Novas e Cristalina, enxames simplesmente tomaram conta de motos. Por coincidência, os veículos são de modelos parecidos e de cor idêntica: vermelha. Os bombeiros tiveram que retirar os insetos. Já em Hidrolândia, um enxame atacou trilheiros. Alguns chegaram a ser hospitalizadas. Mas o que explicaria isso?

Abelhas em apartamentos, abelhas em casas, abelhas sobre veículos. Nos últimos dias tem se intensificado em Goiás as ocorrências envolvendo o inseto, o que pode representar perigo. Por trás desses episódios há o impacto humano no meio ambiente, refletindo diretamente no cotidiano das pequenas voadoras, e também uma curiosa história sobre o ciclo da vida delas.

Só neste ano já foram mais de duas mil ocorrências do Corpo de Bombeiros de Goiás, envolvendo abelhas, marimbondos ou similares.


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“A cidade está sendo invadida por enxames. A gente faz captura todos os dias”, relata o professor de apicultura do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), Julio Portes, que auxilia no resgate desses enxames encontrados pela cidade.

Desmatamentos e queimadas, que aumentam no atual período seco, são uma parte da explicação para esse fenômeno, que também tem relação com a multiplicação natural das abelhas e as flores do Cerrado, segundo três especialistas ouvidos pelo Metrópoles.

Crescei e multiplicai

O Cerrado brasileiro está no período chamado de florada, que é quando a vegetação está cheia de flores. Isso significa mais alimento para as abelhas, que consomem pólen, néctar e resinas, segundo o professor Julio.

Com mais alimento, as abelhas se multiplicam mais e ocorre o período chamado de enxameação, que é a divisão da colônia. Metade das abelhas da colmeia, comandada por uma nova rainha, sai à procura de um lugar para construir uma nova moradia.


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“Sempre aconteceu isso, mas está mais intenso no momento, porque o cerrado está sendo extinto. A previsão é que o cerrado vai se reduzir a somente parques até 2030”, alerta Julio Portes.

Pit-stop das abelhas

É durante a viagem do enxame em busca de um novo lar, que as abelhas acabam se aglomerando em residências e veículos, explica o professor de Zootecnia da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Paulo Vitor Divino Xavier de Freitas.

O professor relata que com a menor presença de árvores, o enxame tem dificuldade de achar troncos mais grossos, com espaços ocos, ideais para construir a colônia.


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No começo de setembro, os bombeiros de Goiás foram acionados para duas ocorrências de enxame de abelhas sobre motocicletas, em Caldas Novas, no sul do estado, e Cristalina, no Entorno do Distrito Federal.

Paulo Vitor avalia, que nesses casos, as abelhas podem ter ficado sobre o veículo para “descansar”. Sim, durante a saga para construir uma nova moradia, os insetos param para evitar gasto de energia. Esse comportamento é específico das abelhas com ferrão.

“Quando elas se agrupam e param em árvores, automóveis e motocicletas, saem algumas abelhas para procurar um local. Quando encontram, elas retornam e comunicam o enxame”, explica o professor da UEG.

Já no dia 5 de setembro, houve um ataque de abelhas a um grupo que fazia escalada em Hidrolândia, na região metropolitana da capital. Neste caso, pelo menos, elas não chegaram a “invadir” a cidade, pois o fato ocorreu na zona rural. De toda forma, as pessoas estavam no caminho do enxame.

Resultado: o grupo de 23 pessoas virou alvo. Vinte pessoas foram feridas, sendo que seis precisaram ser hospitalizadas. Até mesmo o helicóptero do Corpo de Bombeiros foi usado na ocorrência.

Perigo eminente

Os especialistas ouvidos pela reportagem lembram que nem todas as abelhas possuem ferrão. Pelo menos 140 espécies do cerrado não têm ferrão, de acordo com Paulo Vitor.

No entanto, é preciso ter cuidado quando visualizar o enxame. A orientação é ficar longe do local, evitar qualquer barulho e acionar o Corpo de Bombeiros ou o departamento de zoonoses. Não se deve destruir a colmeia ou tentar matar o enxame. Elas são indispensáveis para a manutenção da biodiversidade.


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Caso tenha sido atacado, a orientação é correr na direção oposta ao enxame e proteger o pescoço com roupas. Quando uma abelha ferroa, é liberado um feromônio, que chama outros insetos. Elas se comunicam pelo cheiro, ensina o professor da UEG.

Desmatamento violento

Maria José Oliveira de Faria Almeida, trabalha com apicultura, que é a criação de abelhas, há mais de 50 anos. Ela é presidente da Associação dos Apicultores de Goiás e cria colmeias no meio do Cerrado para produção de mel.


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Na sua experiência, Maria José diz que tem visto um desmatamento violento e triste do Cerrado.

“Nossas abelhas não estão muito próximas da cidade. Como estão derrubando o cerrado, a gente tem que ir em locais cada vez mais distantes, onde tenha vegetação”, explica a presidente.

Além da destruição da vegetação, a apicultora também aponta que muitas abelhas estão morrendo por conta de defensivos agrícolas usados, muitas vezes de modo inadequado, em plantações de soja.

 

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