Por que as manifestações do MBL floparam? Por Miguel do Rosário

Fernando Holiday, Renan Santos e Kim Kataguiri, líderes do MBL (Foto: Reprodução/Internet)

Já é possível fazer uma primeira análise das manifestações realizadas hoje em várias cidades, em favor do impeachment de Jair Bolsonaro.

Elas floparam. Ou seja, juntaram pouca gente.

E floparam porque tiveram uma mancha de origem, indelével, que não foi possível apagar ou diluir: foram organizadas pelo MBL, um movimento ultraliberal que ganhou dimensão nos protestos em favor do impeachment de Dilma Rousseff.

O impeachment de Dilma Rousseff foi um dos golpes mais nojentos da história brasileira.

Não é possível apagar isso. Ah, mas Lula está se reunindo com golpistas.

Sim, mas as articulações de Lula são explicitamente eleitorais.

O movimento social não é ingênuo. Sabe dos riscos desses movimentos de Lula, mas justamente por não ser ingênuo entende que é um risco necessário e calculado.

Mas conversa eleitoral é muito diferente de organizar manifestações populares, que é uma coisa infinitamente mais sensível.

Organizar manifestação necessita muita sensibilidade, porque você tem que convencer as pessoas a irem por conta própria. Pra isso, é preciso um delicado trabalho de persuasão política.

O MBL não apenas apoiou o golpe, e depois se aliou a Michel Temer. Ele também apoiou Bolsonaro.

Leia mais:

1 – VÍDEO – Trump diz que adora Bolsonaro e que presidente ‘trabalha duro’

2 – Bolsonaro zomba de atos por impeachment organizados pela direita

3 – Seguranças de Doria brigam com membros do MBL em ato organizado pela direita

Hoje o MBL tenta mudar sua imagem.

Ótimo. É louvável se afastar de Bolsonaro.

A maioria dos militantes de esquerda não são sectários, e os movimentos sociais já sinalizaram sua disposição de realizar uma grande manifestação nos próximos dias que reúnam os mais diferentes partidos, movimentos e campos ideológicos.

Mas é preciso que a construção desse movimento seja inteiramente democrática.

Manifestação é coisa séria. Os conceitos e objetivos precisam ser discutidos por um coletivo de movimentos organizados.

A experiência histórica já mostrou o risco que é entregar manifestações à “espontaneidade” das massas.

Em geral, elas acabam lideradas por oportunistas, inclusive ligados ao grande capital. As “jornadas de junho de 2013”, origem de movimentos como o “Vem pra Rua”, liderado por operadores de mercado financeiro, não nos deixam mentir.

Pior ainda seria entregar as manifestações populares à coordenação de pequenos e oportunistas movimentos liberais de orientação conservadora, como o MBL.

O movimento Fora Bolsonaro precisa ser hegemonizado pelos movimentos sociais progressistas, pela razão simples de que são movimentos democráticos, organizados e com legitimidade social.

Não se trata aqui de defender hegemonia de algum partido.

A hegemonia é dos movimentos sociais. E isso não se trata de “gosto” de algum intelectual. Apenas os movimentos sociais tem o prestígio político necessário para levar as massas às ruas. Ponto.

Para vencer Bolsonaro, portanto, é preciso respeitar o movimento social organizado, que é democrático e, repito, já sinalizou a disposição de sentar à mesa com qualquer força política interessada em democracia. Mas é para conversar, não para se submeter.

O movimento social está disposto a conversar.

Agora falta ao campo liberal e à direita “democrática” que também façam um gesto de humildade, de que estão dispostos a defender um programa de desenvolvimento focado no combate à pobreza e à desigualdade.

Se o fizerem, será muito mais fácil organizar atos coletivos que tenham a participação do movimento social.

Publicado originalmente no ‘O Cafezinho’

Por Miguel do Rosário

Adicionar aos favoritos o Link permanente.

Os comentários estão desativados.