Refugiados afegãos no Tadjiquistão temem por parentes que ficaram pra trás

Abdulbashir Yusufi ainda não acredita que sua terra natal, o Afeganistão, voltou às mãos do Talibã. A salvo no vizinho Tadjiquistão, teme por seus parentes que permaneceram em casa.

Ele fugiu em agosto para o montanhoso país da Ásia Central, que faz fronteira com o seu, obtendo vistos de última hora e passagens aéreas para sua esposa e filhos.

Este médico conseguiu escapar de sua cidade, Mazar-i-Sharif, e embarcar com sua família em um avião no aeroporto da capital Cabul, antes que caísse nas mãos do Talibã.

Contactado em Dushanbe, a capital tadjique, ele expressa sua grande preocupação por seus parentes, ameaçados por talibãs após a ofensiva no Vale Panshir, último foco da resistência no país.

“Tenho muito medo por eles”, disse Yusufi, de 43 anos, à AFP.

– “Vida ameaçada” –

Dezenas de milhares de afegãos, assustados com o retorno do Talibã ao poder, concentraram-se desde meados de agosto em torno do aeroporto de Cabul na esperança de embarcar em um dos voos organizados pelos Estados Unidos e outros países em que mais de 123.000 pessoas foram retiradas, principalmente cidadãos locais.

Médico que trabalhou para um laboratório farmacêutico britânico e depois para o exército alemão, Abdulbashir Yusufi afirma que voltar para casa é impossível.

“Se voltássemos ao Afeganistão, nossas vidas estariam ameaçadas”, explica Yusufi, que aspira obter o status de refugiado no Ocidente e destaca o tratamento “sempre caloroso” que recebeu no Tadjiquistão.

Esta ex-república soviética com regime autoritário não forneceu dados oficiais sobre o número de afegãos que chegaram ao país desde o início da ofensiva talibã em maio.

E não pretende acolhê-los em massa. O ministro do Interior, Ramazon Khamro Rakhimzoda, disse que cerca de 80 famílias afegãs estão acampadas na fronteira, mas que o Tadjiquistão não pode aceitá-las em seu território.

Para os afegãos que conseguiram chegar no Tadjiquistão, a postura anti-Talibã das autoridades locais é um bom presságio.

Embora outros países vizinhos, como o Uzbequistão, por exemplo, tenham estabelecido laços com o Talibã, as autoridades tadjiques se recusam a fazê-lo.

O motivo é que o Tadjiquistão sofreu uma sangrenta guerra civil na década de 1990, colidindo com grupos islâmicos, e depois foi vítima de ataques terroristas atribuídos a um movimento próximo ao Talibã quando eles controlaram o Afeganistão pela primeira vez.

O presidente tadjique, Emomali Rakhmon, denuncia agora o surgimento de “grupos terroristas” em sua fronteira sul, após o retorno do Talibã ao poder em Cabul.

Em setembro, concedeu uma condecoração póstuma ao famoso comandante afegão anti-Talibã Ahmad Shah Massoud, que foi assassinado em 2001, dois dias antes dos ataques de 11 de setembro que levaram à invasão norte-americana do Afeganistão.

O embaixador em Dushanbe do governo afegão deposto, Zahir Aghbar, também rejeita o regime do Talibã afirma sua lealdade ao ex-vice-presidente afegão Amrullah Saleh, um dos líderes da resistência no Afeganistão.

O novo governo em Cabul é formado por “alguns mulás, alguns dos quais nem mesmo leram dois livros” em sua vida, disse Aghbar em entrevista coletiva realizada na embaixada na última quarta-feira.

Alguns jovens afegãos que fugiram para o Tadjiquistão contaram à AFP sobre seus planos para o futuro.

A filha de Abdulbashir Yusufi, Mahsa, de 15 anos, sonha em morar nos Estados Unidos, ou não no Canadá ou no Reino Unido.

“Se eu puder ir para um desses países, acho que posso me tornar alguém que pode ajudar nosso povo”, disse.

Por sua vez, Abdusabbur Alizai, um estudante de 23 anos, continuará seus estudos na Universidade do Tadjiquistão, onde está matriculado.

Os afegãos “estão descontentes com o Talibã e querem deixar o Afeganistão para ter uma vida melhor”, acredita.

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