Sete meses após fim de prazo, 1ª casa de atingidos de Mariana começa a ser construída em Paracatu de Baixo


O prazo da Renova para início das construções do reassentamento venceu em fevereiro deste ano. Tijolo de Paracatu de Baixo
Wandeir Campos/Cáritas MG
Quase seis anos após o rompimento da barragem da Samarco – que tem como donas a Vale e a BHP Billiton – em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, o “primeiro tijolo” foi colocado no reassentamento de Paracatu de Baixo, na manhã desta quarta-feira (15). Isto aconteceu sete meses depois do fim do prazo para construção das casas.
Os moradores que tiveram imóveis destruídos pela lama seguem sem perspectiva de quando poderão voltar para casa.
“Demorou muito a colocação do primeiro tijolo, sendo que tudo deveria ser isonômico e a gente espera que as casas subam e encadeiam uma atrás da outra e que a gente veja as casas do jeito tínhamos antes, não uma ‘cidade’, como estão prometendo por aí” Luzia Queiroz, atingida de Paracatu de Baixo.
O vencimento do terceiro prazo para a entrega dos reassentamentos em Mariana (MG) completou seis meses na na sexta-feira, 27 de agosto. O fim do prazo de Paracatu de Baixo, foi em fevereiro deste ano.
De acordo com a Fundação Renova, em agosto, seis residências tiveram obras iniciadas, mas apenas a montagem de fundação foi concluída no distrito.
A previsão é que o reassentamento abrigue 94 famílias. Segundo a Renova, no mês passado, 64 projetos básicos foram protocolados na prefeitura e 39 alvarás de casas foram emitidos.
A casa de Romeu Geraldo Oliveira, que integra a comissão de atingidos de Paracatu, está entre as que tiveram o projeto concluído. Segundo ele, em conversa com o G1, em agosto, a expectativa é que a obra comece em novembro, mas a data para a entrega ainda é indefinida — para ele e para todos os atingidos.
“O sentimento é de injustiça. A gente fica brigando por uma coisa que é digna da gente: a nossa casa. Fomos expulsos de casa e 6 anos para iniciar o primeiro tijolo nas casas do reassentamento”, desabafou Romeu.
Em nota, a Fundação Renova disse que mais de 80 projetos “conceituais” foram concluídos.
Leia a nota na íntegra:
“As obras no reassentamento de Paracatu de Baixo, em Mariana (MG), entram em uma nova etapa com o início da construção civil de 11 casas e quatro bens coletivos no dia 15 de setembro. As obras serão executadas simultaneamente às intervenções de infraestrutura, que estão 80% concluídas.
Elaborado com a participação ativa dos futuros moradores, o projeto do reassentamento se assemelha à construção de uma cidade, com equipamentos públicos, pavimentação das vias e redes de energia, água e esgoto.
As obras das residências e dos bens públicos estão sendo conduzidas pela Technion Engenharia e Tecnologia e incluem o Posto Avançado de Saúde, o Posto de Serviços e as Escolas de Ensino Fundamental e Infantil. Já as obras de infraestrutura estão sob responsabilidade da construtora Andrade Gutierrez.
A atuação de uma nova empresa no reassentamento permite aumentar a performance das obras, resultando em mais oportunidades de emprego e movimentação do comércio local.
Atualmente, seis casas estão com a etapa de fundação concluída no reassentamento de Paracatu de Baixo. Até 9 de setembro, 64 projetos básicos foram protocolados na Prefeitura de Mariana, 46 alvarás de casas foram liberados e 5 alvarás para bens coletivos (escolas de ensino infantil e fundamental, Posto Avançado de Saúde, Posto de Serviços e Salão Comunitário) foram emitidos.
Estão em andamento a pavimentação do acesso principal, as redes de drenagem, esgoto, adutora e distribuição de água, com frentes de trabalho simultâneas em todas as obras. Os próximos passos são a conclusão da infraestrutura, a construção das casas e bens públicos e a contratação da empresa para as obras da Estação de Tratamento de Água (ETA) e Estação de Tratamento de Esgoto (ETE).
O processo de construção do reassentamento de Paracatu de Baixo teve início em 2017 e contou com longos processos de discussão, readequações do projeto conceitual, compra de terrenos vizinhos, aprovação do projeto paisagístico, desafios de topografia e validações de projetos de lei e emissões de alvarás. O licenciamento do reassentamento só foi obtido em 2019. Além disso, em 2020, foram necessários replanejamento das obras e redução do ritmo das intervenções em função da pandemia da Covid-19”.
Reassentamento dos atingidos de Paracatu de Baixo, nesta quarta-feira (15).
Cáritas
Esqueleto de escola foi erguido no reassentamento de Paracatu de Baixo, segundo comissão de moradores. Casas, porém, ainda não receberam tijolos
Romeu Geraldo Oliveira/Arquivo Pessoal
Atrasos e revolta
No dia 27 de agosto, Mônica dos Santos, integrante da comissão dos atingidos de Bento Rodrigues, relatou a angústia de quem espera por uma casa, por tanto tempo.
“As pessoas estão morrendo sem ver um tijolo sendo colocado, sem ter esperança que sua casa vai ficar pronta”, disse Mônica dos Santos, integrante da comissão dos atingidos de Bento Rodrigues.
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Em Bento Rodrigues, distrito que desapareceu sob a lama em 2015, dez casas de um total de 247 foram finalizadas. Outros 82 imóveis estão em construção.
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Acima, Bento Rodrigues antes da tragédia; abaixo, ruínas da igreja e de casas em 26 agosto de 2021
Mônica dos Santos/Arquivo Pessoal
Em quase 70 meses, nem mesmo as obras de infraestrutura foram finalizadas. A entidade afirma que, até julho, estas intervenções haviam atingido 95% e justifica que o restante dos trabalhos está atrelado à construção das casas.
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No dia 5 novembro de 2015, no momento em que a barragem de Fundão se rompeu matando 19 pessoas, Mônica estava trabalhando em Mariana. Ela conta que, ao saber o que tinha acontecido, pegou o carro e dirigiu em direção a Bento Rodrigues, mas não conseguiu chegar ao distrito. Ela passou a noite da estrada e, só ao amanhecer, conseguiu ver ainda de longe sua casa – destruída pela lama.
“A nossa casa tinha três quatros, duas salas, cozinha, área de churrasco, varanda na frente, pomar, laranja, mexerica, caju. Tinha também horta, flores. Tinha vida”, descreve.
Em fevereiro, quando prazo venceu pela terceira vez, atingidos de Mariana protestaram com nariz de palhaço em frente às obras inacabadas
À esquerda, praça de Bento Rodrigues antes de ser invadida pela lama da barragem; à direita, local quase 6 anos após a tragédia
Mônica dos Santos/Arquivo Pessoal
Paracatu de Baixo ficou sob a lama
Raquel Freitas / G1
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