Sonhos de um berço esplêndido

Sonhei que vivíamos numa “Democracia Parlamentarista”, em que os deputados faziam as leis, os tribunais as aplicavam e o presidente – uma espécie de primeiro-ministro desse novo Parlamentarismo – não era originalmente um político.

Depoutados em sessão da Câmara – Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados/Divulgação/ND

Mas um cidadão estudioso, que passara por um concurso público rigoroso, cujas matérias principais eram administração pública, execução orçamentária e políticas de amparo social. Este funcionário público no 1 era apenas isso. Um funcionário graduado. Prestava contas diariamente pelas redes sociais, explicando o gasto e o retorno de cada centavo. Concurso sério, renovado a cada dois anos.

“Renda Per Capita” em alta, o povo brasileiro passaria a nutrir plena confiança em suas instituições, depois que a Grande Reforma Política reduzira o Executivo para 10 ministérios, o Legislativo para 150 deputados e os partidos políticos apenas cinco, abolindo o Senado.

Dizem os especialistas – e nem falo no doutor Freud – que sonhamos todos os dias, mas não nos lembramos de todos os sonhos. Só nos lembramos da parte final, vizinha do despertar. É a apoteose do cinema mental, quando o “filme” já está próximo do seu costumeiro “happy end”.

Ocorre que os tempos andam tão sinistros que passei dias sem sonhar. Ou só vi filmes em preto e branco – alguns, apresentados como pesadelos, estrelados por essa turma que trocou a “política” pela “polícia”.

Os sonhos em cores, com direito a Oscar de efeitos especiais, são aqueles que acontecem num estado de “semivigília”, o cérebro ainda em intensa atividade, o olho na “posição REM – “Rapid Eye Moviment”. Ou seja, o olho ainda vivo, “ladino”, como diria um bom Mané.

Dos sonhos que me lembro, o melhor de todos foi esse em que o Brasil “era outro”, muito melhor. Os políticos fizeram um “mea culpa” e se regeneraram. Houve até casos de “haraquiri”, à maneira do resgate japonês da própria honra, o sujeito se auto-estripando, envergonhado da própria conduta criminosa.Já imaginaram? Um Brasil “limpinho” e asseado, tudo de volta aos seus lugares. Bolso sendo bolso, cueca sendo cueca, os antigos “propineiros” fazendo fila no Banco do Brasil.

E sabem pra quê? Pra devolver o “petrolão” indevido, mantendo a ficha impecavelmente limpa. Acreditem ou não: no meu sonho colorido, vereadores e deputados aprovariam um projeto de
lei, de origem parlamentar, tornando “voluntária” e “honorífica” a sua atividade cidadã.

Todos abdicariam dos salários e das mordomias – até mesmo do auxílio-moradia e do auxílio-paletó.Com um sonho desses poderíamos admitir com serenidade aquela imagem do nosso hino, segundo a qual vivemos num “gigante adormecido em berço esplêndido”.Desse sono seria justo nunca mais acordar

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