Um destes dias voltei a ouvir Goiás

“Estamos caipiramente comendo”, disse ele, nesse jeito que ficou na minha memória como o canto de Goiás. E, pensando bem, haverá melhor maneira de o dizer?

Alexandra Prado Coelho*

Como é que guardamos as memórias de cada viagem? Quando penso nas viagens de que nunca me esquecerei, voltam sempre – e cada vez mais – os dias de Goiás. Claro que há as fotografias, e nessa viagem pelo Estado do centro do Brasil, a fotógrafa Dani Fernandes guardou cada momento.

Podemos voltar a elas e lá está o Humberto Marra, cozinheiro maravilhoso, a comer pastelinho e a beber garapa no mercado de Goiânia, com aquele sorriso doce; a Ana Maria Rosa, com os seus peixes fumados e gargalhada solta; os deliciosos pastelinhos em casa da Dona Augusta; Dona Alice a trabalhar o barro; Dona Gracinha e as suas empadas; os bolos de arroz da Dona Inês no mercado; Dona Sílvia Curado a pintar os mágicos alfenins de açúcar.

Mas antes de tudo isso, a primeira memória de Goiás vem sob a forma de som: é a voz cantada do Aloísio, contando coisas que parecem sempre pairar entre a realidade e a fantasia. A poesia de Cora Coralina, a grande poeta de Goiás, mistura-se com o que nos rodeia. Será que a receita dos bolos de arroz, que comemos, quentinhos, no mercado pela manhã, chegou a Goiás, escrita em mandarim, dentro do aparelho azul pombinho do poema? Esse mesmo, de porcelana chinesa, “Enorme. Pesado, lendário/Pintado, estoriado, versejado,/de loiça azul-pombinho”.

E no outro dia, sem aviso nem preparação, percorrendo o Instagram, ouço a voz de Aloísio. Lá está ele, nas ruas da cidade de Goiás, em frente à casa-museu de Cora Coralina, declamando um dos poemas dela. Há uma música das palavras que imediatamente me transporta para lá do oceano, até uma dessas noites quentes e sem pressa, à beira do Rio Vermelho, aos pés da Serra Dourada.

O resto vem à boleia dessa música. Não sabia, mas afinal guardei outros sons: o do bater do suco da cana-de-açúcar, já fervida, na cuia de madeira, até engrossar e se transformar numa pasta caramelizada que vai ser a rapadura; o das facas a descascar a mandioca, em gestos rápidos e precisos; o da farinha de mandioca a tostar num grande recipiente de metal, em cima do fogo, e nós a rodá-la sempre de um lado para o outro – tsck, tsck, tsck.

E atrás deles vêm os cheiros e os sabores. O aroma a caramelo que enche o ar quando a garapa, o suco da cana, é trabalhada; o da rara baunilha do Cerrado que por um qualquer milagre cresce mesmo ali no jardim da casa de Aloísio; os dos doces de fruta a ganharem a sua crosta de caramelo nas panelas de cobre das casas das muitas donas de Goiás.

Antes de viajarmos para a vila encantada, guiados sempre pela sabedoria da nossa anfitriã Mara Publio, passamos uns dias em Goiânia, a capital do Estado. E foi aí que primeiro nos cruzamos com os sabores deste território de paisagem seca a parecer que não nos vai dar nada e de árvores retorcidas a prometer uma vida difícil. E aprendemos que isso é só para quem não sabe olhar – nem escutar – o que nos rodeia. O poeta (sempre os poetas) Nicolas Behr sabia o que ali se escondia: “Nem tudo o que é torto é errado. Veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado”.

É do Cerrado que vem o pequi, esse fruto amarelo de sabor intenso e polpa fina que é preciso aprender a comer, com jeitinho, para os dentes não furarem o caroço e os espinhos não se espetarem na boca. Reencontro-o agora ao ler Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa: “O Garanço se regalava com os pequis, relando devagar nos dentes aquela polpa amarela enjoada. Aceitei não, daquilo não provo: por demais distraído que sou, sempre receei dar nos espinhos, craváveis em língua.”

Será, mas eu avancei sem medo e de mente aberta para tentar entender o Cerrado através dos seus sabores e dos frutos sabiamente guardados. Não sei o que entendi. Nunca sabemos realmente. Mas, a pouco e pouco, alguma coisa desse viver poético foi entrando em mim. E em nenhum lugar ele se mostrava mais do que nas palavras, a começar pelos nomes: baru, jabuticaba, buriti, guariroba.

É preciso aprender a ficar quieto para que as noites mornas de Goiás façam o seu efeito em nós. A cana demora a moer, a garapa demora a engrossar, não podemos apressar a farinha de mandioca, nem o cristalizar das frutas nos tachos de cobre. A vida aqui tem o seu tempo próprio. E a sua sabedoria.

Numa dessas noites, Aloísio fez para nós rosas de coco, flores criadas, delicadamente, com coco, água de coco e açúcar, prova de como a comida se transforma também em poema, tal como o Cerrado se transforma em comida. Foi num jantar “totalmente caipira”, com o arroz tropeiro e a carne seca que comiam os bandeirantes, feijão com farofa, abóbora com jiló. “Estamos caipiramente comendo”, disse ele, nesse jeito que ficou na minha memória como o canto de Goiás. E, pensando bem, haverá melhor maneira de o dizer?

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