Uma centena de pessoas deixam Cabul no primeiro voo após retirada americana

Uma centena de pessoas, entre elas americanos, foram retiradas nesta quinta-feira de Cabul, no primeiro voo com estrangeiros a decolar da capital afegã desde que as últimas tropas americanas deixaram o país, no fim de agosto.

O voo, com destino a Doha, aconteceu no momento em que os talibãs tentam fortalecer seu regime, menos de um mês depois de tomarem o controle do país.

Os passageiros embarcaram sob a vigilância de guardas do Catar. Doha está bastante envolvida na operação, bem como na reativação do aeroporto de Cabul, que fechou após a retirada americana. Doha e a aliada Turquia trabalham há dias para recuperar a estrutura aeroportuária.

Os Estados Unidos reconheceram que falta retirar muitos afegãos potencialmente em risco por terem trabalhado com o antigo governo ou com países ocidentais. Washingon elogiou a “cooperação e flexibilidade” dos talibãs após o voo de hoje: “É um primeiro passo positivo.”

“Esperamos que, em um futuro próximo, o aeroporto esteja pronto para qualquer tipo de voo comercial”, disse o porta-voz do governo talibã, Zabihullah Mujahid.

– Protestos proibidos –

No campo político, os islamitas trabalham para consolidar seu poder, às vésperas do aniversário do 11 de Setembro, ponto de partida da invasão ocidental ao Afeganistão, que expulsou os talibãs do comando do país.

Embora os talibãs insistam em que mudaram e que não são mais aquele regime repressivo, especialmente com as mulheres, que governou entre 1996 e 2001, suas primeiras semanas no poder mostram que não vão tolerar nenhum tipo de oposição.

Nesta quinta-feira, vários protestos em favor da liberdade foram cancelados na capital afegã, depois que o novo governo proibiu esse tipo de ação. Nas ruas de Cabul, viam-se muito mais combatentes talibãs armados do que nos dias anteriores, nas esquinas e nos postos de controle do tráfego nas grandes avenidas.

Ao longo da semana, talibãs armados dispersaram concentrações de centenas de pessoas em várias cidades do país, incluindo Cabul, Faizabad (nordeste) e Herat (leste), onde duas pessoas foram mortas a tiros.

Para encerrar as manifestações, na quarta-feira à noite, o novo governo talibã ordenou que qualquer protesto fosse autorizado previamente pelo Ministério da Justiça. E que, “por enquanto, nenhum foi”.

– Ganhar legitimidade –

Os talibãs anunciaram seu governo de transição, composto por membros ultraconservadores, alguns dos quais já governaram durante o regime fundamentalista brutal da década de 1990.

Vários ministros estão nas listas de sanções da ONU e não há mulheres no gabinete.

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, alertou o novo governo que deve “conquistar” sua legitimidade perante a comunidade internacional, após o anúncio deste gabinete que inclui membros procurados por Washington.

Apesar de o Talibã ter prometido incluir membros de outros grupos no governo, a realidade é que os principais cargos anunciados são ocupados por líderes talibãs: o ministério do Interior é liderado por Sirajuddin Haqqani, chefe da temida rede Haqqani – classificada como terrorista pelos Estados Unidos – e da Defesa por mulá Yaqub, filho do mulá Omar, fundador do movimento.

Mohammad Hasan Akhund, que foi ministro entre 1996 e 2001, é o responsável pelo governo.

Os talibãs também recriaram o temido Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício, que, no regime anterior, garantia que a população respeitasse sua interpretação estrita da lei islâmica.

Nesta quarta-feira, o ex-presidente Ashraf Ghani, cuja fuga em 15 de agosto abriu as portas de Cabul e do poder ao Talibã, pediu desculpas ao povo afegão por não ter oferecido um futuro melhor.

Este novo governo enfrenta a difícil tarefa de retomar a economia do país e lidar com problemas complexos de segurança, incluindo a filial local do grupo Estado Islâmico, rival do Talibã e por trás de ataques sangrentos.

Enquanto isso, por todo o país vão surgindo símbolos marcando os novos governantes.

Em imagens que circularam nas redes sociais, é possível constatar que o principal aeroporto do país, antes denominado Hamid Karzai International em homenagem ao primeiro presidente pós-Talibã, passou a se chamar Kabul International.

E um feriado nesta quinta-feira em memória ao famoso comandante Ahmed Shah Masud, assassinado em 2001 pela Al-Qaeda, também foi cancelado.

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